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Visita ao Colégio do México

Colégio do México, Cidade do México, México, 18 de agosto de 1987

 

Templo maior da inteligência latino-americana, com quase meio século de existência, este colégio continua sendo único e exemplar como centro de pesquisa e como Assembleia de grandes professores em humanidades e ciências sociais. Fundado sob a dupla égide da história e do humanismo, graças ao fecundo trabalho de Cossío Villegas e Alfonso Reyes, soube sobreviver a todas as transformações por que passou a estrutura universitária em nosso continente. 

Seu estado e vocação — a primazia da pesquisa conduzida por uma plêiade de scholars — o preservam dos perigos da massificação. Por aqui passaram lúcidos dirigentes, eles mesmos grandes intelectuais, como é o caso, hoje, do internacionalista D. Mario Ojeda.

O Brasil intelectual vê a obra do Colégio do México com profundo respeito e admiração. Os senhores retiveram o segredo da excelência em meio à pressão do número e ao ruído das ideologias. Não é dizer pouco.

Mencionei a figura ímpar de Alfonso Reyes. Ainda guardamos no Brasil a grata recordação daquele que foi, entre nós, um incomparável embaixador, não só do governo, mas também do espírito mexicano. Quando concluiu sua missão, poucos anos antes de seu regresso definitivo ao México, os melhores escritores modernos do Brasil, a começar por Manuel Bandeira, o grande poeta que ensinava literatura hispano-americana na universidade, sentiram a lacuna por ele deixada.

Alguns de seus textos, neste gênero cheio de humor e poesia que os brasileiros chamam crônica, me fazem crer, que Reyes amou o Brasil, tanto quanto os brasileiros o amaram e admiraram.

No Rio, como sabem os senhores, ele escreveu algumas de suas páginas máximas, e com isso não refiro apenas a seus Romances do Rio de Janeiro (1933), mas também a um ensaio crucial, O Mexicano e o Universal, e a alguns de seus poemas-chave. Poemas como Sol de Monterrey, por exemplo; ou os versos, tão sentidos, em memória da morte de seu pai, naquele Febrero de Cain y de Metralla.

Alfonso Reyes foi o magnífico pioneiro do contato cultural entre o México e a América do Sul. Estava persuadido, e o disse em O Destino da América, que “as nações americanas não são, entre si, tão estrangeiras como as nações de outros continentes”.

Alfonso Reyes tornou o México e o Brasil mais próximos um do outro.

Sua missão está ainda vigente e deve ser continuada por nossos artistas, por nossos intelectuais e por nossos políticos.

Como escritor e como político, sinto-me duplamente investido da missão de promover o estreitamento de nossos laços culturais.

Sou escritor por vocação e político por destino.

O intelectual busca sempre uma visão profética, seus desejos são plenos de ideais absolutos. O político tem de ater-se às limitações de sua capacidade de ação. É difícil ajustar, portanto, estas vertentes que se conflitam, mas ao fim se completam, porque é angústia do intelectual que abastece de determinação a ação política.

A crença na literatura tem-me ajudado, na condução da política, a jamais perder de vistas os largos horizontes que cruzam os embates do quotidiano.

Para o escritor, todos os mundos são abertos. O intelectual não pode se conformar com as tristes realidades do dia a dia. Ele está empenhado em transformá-las, porque, por hábito e disciplina, vê mais longe.

O fato de estar na política tem-me permitido, por outro lado, confrontar os ideais e sonhos do intelectual com os imperativos e possibilidades concretas do presente. O papel transformador do político tem como limites a própria realidade. A política é a arte do impossível.

Felizmente, na questão da aproximação cultural entre o México e o Brasil, o sonho do intelectual está podendo ser realizado pelo político.

Somos pátrias irmãs, com ricas e complexas culturas, a um só tempo próximas e distantes entre si.

Quando lemos as Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e El Labirinto de la Soledad, de Octavio Paz, nos damos conta de que existe um caráter do brasileiro, como existe um caráter do mexicano, que em alguma medida constrastam e até certo ponto se assemelham. Aqui, o culto da morte e do trágico, expressão profunda de uma rica história e de uma cultura milenar. Lá, a tristeza exorcizada na explosão carnavalesca. Aqui como lá, o culto das máscaras, da festa; a cordialidade do homem.

Aqui, como lá, a miscigenação das raças, o sincretismo religioso, a produção de uma cultura que é uma fusão das culturas.

Se nossas tradições às vezes nos aproximam e às vezes nos fazem distintos e complementares, quando percorremos nossos territórios temos a nítida sensação de que estamos num mesmo país, tal é a semelhança de nossa paisagem social.

Enfrentamos o agudo problema do contraste entre pobreza e riqueza. Estamos confrontados com a urbanização acelerada e desordenada, com a questão da marginalidade nas grandes cidades. Temos pela frente os desafios, os bons frutos e os enormes ônus da industrialização.

Tudo isso nos faz indagar sobre o modelo de desenvolvimento que desejamos implantar e qual o caminho da nossa “busca da felicidade”.

Nossas sociedades carregam o pesado fardo de uma dívida externa que tem a ver com as formas de inserção de nossas economias no sistema internacional.

Nossos povos, portanto, se parecem, pois são semelhantes seus problemas materiais e suas expectativas de superação do desenvolvimento.

As ciências sociais da América Latina têm fornecido uma contribuição teórica fundamental para o entendimento dessa nossa realidade. Tem havido, aliás, uma influência recíproca e benéfica entre as obras produzidas em nossos países.

A América Latina, na sua pluralidade, é, portanto, uma só. Sua identidade se funda em valores histórico-culturais e na realidade de sua inserção econômica e política no mundo.

O Brasil é parte plena dessa América Latina. Caberia aqui recordar a tese de Gilberto Freire, o grande sociológo que há pouco perdemos: o brasileiro tem seu lugar entre os outros híspanos.

A irmandade latino-americana não tem apenas que ver com nossa raiz ibérica comum, não reflete apenas o fato histórico hoje distante, da conquista. Antes traduz o nosso próprio presente; expressa uma peculiaridade essencial de nossa cultura, vigente e viva. Culturalmente falando, a expansão ibérica, ao contrário de outras colonizações europeias, recusou o etnocentrismo. E isso porque, segundo Gilberto Freire, é próprio do gênio hispânico de civilização “ser transnacional sem repudiar o nacional; suprapessoal, simbólico, universal sem rechaçar o pessoal”; e ademais saber “buscar o essencial, sendo constantemente existencial”.

Daí a natureza fortemente permeável de nossa cultura latino-americana: aspectos que não se devem tomar por meramente negativos, pois representam uma face legítima e efetiva de nossa civilização. Um traço que, sendo fiel à experiência histórica de nossas raízes, se converteu numa clara vantagem do mundo atual, condenado como está à supercomunicação, à interdependência a ao contato. Constante entre culturas distintas.

Já dizia Bolívar, em sua Carta da Jamaica, que os latino-americanos são “um pequeno gênero humano”. E assim é, afortunadamente.

Nações como México e Brasil não são apenas sociedades mestiças: são, também, culturas mescladas, onde o nacionalismo mais autêntico é o mais aberto ao intenso intercâmbio com outros povos, outros tempos, outros costumes. Nosso próprio horror à dependência é desejo de abertura e pluralidade. A questão do outro nos fascina. Na realidade, é parte de nosso sentido de identidade.

Neste final de século, de nossas modernizações, o outro que buscamos é a modernidade. Minha experiência política coincide muito com essa busca. Hoje, governar é essencialmente modernizar.

A busca do equilíbrio cultural é, nestas circunstâncias, uma meta ainda mais premente. Trata-se de abrir caminhos sem trair as origens, de conquistar futuros sem apagar a significação do passado, de multiplicar liberdades sem fazer tabula rasa das boas tradições, de crer no progresso sem cair na superstição do novo.

Aprendemos a duras penas o custo social do desenvolvimento às cegas. E, entretanto, não nos podemos dar ao luxo de não crescer. Só o progresso econômico nos permitirá resgatar nossas massas de sua pobreza; só o desenvolvimento nos faculta aumentar a justiça sem prescindir da liberdade.

A problemática da cultura na democracia é a tensão entre acesso e qualidade. Para alguns, não se trata de tensão, mas antes de uma verdadeira contradição: entre o acesso das massas à cultura e a consecução da qualidade, haveria pura e simplesmente que escolher. Não me incluo entre os que compartem o pessimismo desse elitismo.

Acredito que se possa compatibilizar a multiplicação de oportunidades educacionais com a perseverança no aperfeiçoamento de níveis intelectuais e culturais. Se o desenvolvimento educacional está, e com razão, desacreditado, o direito à educação continua sendo uma das marcas de nossa cultura democrática. O problema, portanto, não é uma disjuntiva — acesso ou qualidade — mas sim uma síntese: assegurar o acesso à qualidade.

Na era das massas, as grandes instituições de cultura são os faróis da excelência no oceano do número. Por isso, têm de ser ao mesmo tempo abertas em seu espírito e rigorosas no seu método, como é o Colégio do México.

Como qualquer outra civilização, a cultura da técnica requer uma sabedoria. Mas a sabedoria, em nossa sociedade ultracambiante, é ela mesma estável e intangível. Por carecermos de sabedoria à antiga, fixa e uniforme, incorremos muitas vezes no equívoco de confundir sabedoria com puro conhecimento e conhecimento com a simples informação. Para evitar este equívoco, é que necessitamos manter o saber — uma grande parte do saber — livre de toda utilidade imediata. E, nisso, aquele gênio plástico, aquele dom para a mescla, que impulsiona a cultura latino-americana, não é má companhia.

Encruzilhada de culturas, a América Latina não se situa em má posição para converter o intercâmbio de saberes em fonte de moderna sabedoria. Nossos mestres, nossos intelectuais, não esquecerão esse fato, estou certo, nessa hora em que se aviva mais ainda o sentimento comum latino-americano.

A preservação dos valores culturais latino-americanos é fundamental para o reforço de nossa identidade. Ela não deve ser confundida, porém, com a estagnação cultural. Somos portadores de culturas dinâmicas.

O maior estreitamento dos laços culturais entre nossos países, aliás, pode ter como um de seus resultados o enriquecimento cultural recíproco e, consequentemente, o reforço da expressão latino-americana em termos globais.

Por fim, apraz-me assinalar quanto, dentro de nossa comunidade latino-americana, o Brasil e o México, em particular, compartem valores, ideais e preferências. Sem sair do nosso tempo, não há brasileiro culto que não admire o gênio dos grandes muralistas mexicanos, ou a literatura de Revueltas, de Juan Rulfo, de Octavio Paz ou de Carlos Fuentes, ou a arte de Cuevas, como não há mexicano sensível que não conheça a arquitetura de Lúcio Costa e Niemeyer, a música de Villa-Lobos, a ficção de Guimarães Rosa ou de Jorge Amado, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, que ontem morreu, deixando um abismo no Brasil. Ele era um deus. A poesia é a arte de Deus. E quando um deus morre, um deus como Drummond, que era um deus pagão, que era um deus humano, o mundo treme, porque morreu um grande poeta. Estou seguro de que nessa aproximação, hoje como ontem, o Colégio do México desempenha papel fundamental.