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Maranhão

Sem e com a toada do Boi

Nessa imensa tragédia da pandemia de Covid-19 — que atinge números difíceis de imaginar, crescendo agora a 50 mil casos por dia e já sendo mais de um milhão e meio, com mais de 60 mil mortes — ficamos em casa, no necessário isolamento para que a calamidade seja menor e perdemos o convívio diário com a família e os amigos. Mas no mês passado o que faltou também foi a alegria de tambores, matracas, a alegria da festa que toma conta da cidade. As festas juninas devem ser uma Continue a ler

A Saga do Ministério da Cultura

Durante o meu governo, na elaboração do Plano Verão, trouxeram-me o esboço dos cortes que pensavam que devíamos fazer: a primeira coisa que ali estava era a extinção do Ministério da Cultura, por mim criado no dia em que assumi a Presidência da República, 15 de março de 1985. Quando li, minha primeira reação foi uma pergunta indignada: “Os senhores ou querem me ofender ou não conhecem a minha carreira parlamentar. Pois saibam que minha causa parlamentar foi a cultura, fiz dezenas de discursos e apresentei vários projetos de lei Continue a ler

Uma cantora do Maranhão Novo

Em casa, na solidão em que me encontro do Covid-19, chega uma notícia que me traz nostalgia. Cem anos do nascimento de Elizeth Cardoso, a grande cantora, a Divina, dos meus tempos de moço. A conheci no Rio de Janeiro, deputado federal, em 1955. Ela cantava numa casa de show, aonde fui levado pelo nosso sempre saudoso e inesquecível Henrique de La Rocque, de quem ela era amiga. Quando terminou o espetáculo La Rocque levou-a para tomarmos um drink. O Rio de Janeiro, como disse Hemingway de Paris, era uma Continue a ler

A estrada Santa Luzia-Açailândia

Como um humanista, cuja vocação não era a política — e que nela entrou seguindo a máxima de Napoleão de que a política é um destino, e não uma vocação —, exerci o destino com a visão de construir, sem caráter partidário, nem de facção, nem de divisão, nem de considerar os que não pensavam comigo como inimigos. Todas as ações Sarney e o Maranhão e no Maranhão foram pensando no conjunto do Estado e no objetivo maior da Política com P maiúsculo, como dizia Nabuco, pensando coletivamente e procurando Continue a ler

Boa Esperança

Ninguém pode avaliar a guerra necessária para o administrador fazer uma grande obra, com a complexidade e as dificuldades de coordenação, desde o projeto até à construção e à finalização da obra. Quando assumi o governo do Maranhão, em 1966, o Maranhão estava às escuras. Não havia energia nem em São Luís nem em nenhum lugar do Estado inteiro. Um capitão do Exército, chamado César Cals, sonhava com a construção de uma Hidroelétrica no Rio Parnaíba, em Boa Esperança, onde o rio era mais estreito. Veio 1964 e o sonho Continue a ler

Projeto de Incentivos Fiscais para a Cultura

Senado Federal, Brasília, DF, 14 de março de 1985   Deverei amanhã, na forma da Constituição da República, assumir o cargo de Vice-Presidente. Assim, desejo marcar meu último dia nesta Casa na coerência de um gesto que norteou sempre a minha vida de homem público, que foi a de um político preocupado com as coisas da cultura. Sou avesso à despedidas e por isso, não a farei, formalmente, perante o Senado Federal. Quero, apenas, que fique nos Anais o Projeto que encaminho à Mesa, para deliberação do Senado, que renova Continue a ler

Ao receber Título de Doutor Honoris Causa

Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal, 7 de maio de 1986 Chego a esta Universidade carregado de lembranças permanentes, não daquelas que a vida vivida acumula em nossa memória, sedimentadas pela experiência, e, sim, das que nos vêm dos livros, das conversas, das crônicas de jornal, com transunto das vivências alheias.  Parece-me que já andei por estes corredores, por estes pátios, por estas salas de aula, por estes salões capitulares, com a tradicional capa e meus compêndios, e recitei, também, os meus poemas. Não precisei ler o velho Teófilo Braga para Continue a ler

Posse na Academia de Ciências de Lisboa

Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Portugal, 5 de maio de 1986 Confesso a minha vaidade em pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, irmã mais velha de minha Academia Brasileira de Letras.  Agradeço sensibilizado as palavras de saudação com que me distinguiu Vossa Excelência, Senhor Professor Jacinto Nunes, nosso presidente, cujo renome internacional como economista e cujas qualidades de homem devotado a esta Academia e aos ideais emprestam um brilho especial a esta cerimônia para mim inesquecível. Minha gratidão pelas palavras carregadas de magnânima benevolência do acadêmico José Hermano Saraiva, Continue a ler

Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras

Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, RJ, 6 de novembro de 1980 Elogio de José Américo de Almeida “Profeta das ruas, mago do sertão” Casa de Machado de Assis, símbolo dos nossos valores espirituais. À sombra dos meus deuses o sortilégio dos meus caminhos me fez chegar. Nada mais alto, aqui é o infinito. O deus primeiro, o Deus da minha fé, da minha submissão à sua voz semeadora dos destinos, que me guardou nas dúvidas, encheu de certezas os meus clarões de perplexidades, estendeu-me a mão firme de Continue a ler

De volta ao Maranhão Novo

No meu último artigo sobre o meu governo do Maranhão, 1966-1970, terminei contando como constituímos um grupo de trabalho para planejar o que íamos fazer. Era o GTAP.  Faltava água, as ruas estavam destruídas e a energia eram quatro geradores a lenha da Ullen. Atacamos essas emergências. Asfaltei todas as ruas de São Luís, criei a Caema e fiz um novo sistema de abastecimento de água. Construímos a barragem do Batatã; no Sacavem, a adutora e a ampliação da Estação de Tratamento de Água; reformamos todos os sistema de distribuição Continue a ler

Por que São Luís?

A grande tarefa de 1966 era tirar o Maranhão do século 19 e trazê-lo para o século 20. Era um estado totalmente desintegrado e sem cabeça, isto é, sem capital. O sul do Maranhão estava ligado a Goiás e a economia do lado do Tocantins ao Pará. Toda a vida na densa floresta amazônica que acompanhava a rodovia Belém-Brasília e em torno das nascentes do Mearim, do Pindaré e do Grajaú se voltava para o Pará e Goiás, sem nenhuma ligação com o Maranhão. A margem esquerda do Rio Parnaíba, Continue a ler

Maranhão (2)

Dou prosseguimento ao meu testemunho sobre o que era o Maranhão quando assumi o governo em 1966. Afirmei então que vivíamos no século 19, pois não havia Estado (no seu conceito moderno) funcionando.  Era a estagnação e a ausência de serviços públicos: nem médicos, nem equipamentos de saúde, nem saneamento, nem leis que representassem a busca do bem público. O que existia era o poder do mando, era uma classe que, se apoderando das funções do Estado, em seu nome explorava o povo, condenado à pobreza absoluta. Vinham da Colônia Continue a ler

Como era o Maranhão

Em 1966, ao assumir o Governo do Maranhão, constatei de que não podíamos debitar somente aos governadores, meus antecessores, a situação de bagunça em que estava a administração do Estado. Na verdade ela não existia. Basta, como exemplo, dizer que a contabilidade era feita à mão, num daqueles velhos e grandes livros iguais aos do comércio de “deve” e “haver”. Meu primeiro ato foi ir ao Tesouro e, com um lápis vermelho, encerrar esse livro e escrever: “Aqui começa um novo Maranhão.” Já citei uma vez o grande chefe político Continue a ler

Esquecer e Lembrar

Os psicanalistas apresentam como certeza que a gente não esquece as coisas pelas quais guarda interesse e esquece as que não nos interessam. A memória se encarrega dessa diabólica lei seletiva. Isso para a política é trágico, porque o bem que se faz é logo esquecido, e os inimigos ficam inventando sempre o mal que não se fez. O Senador Vitorino Freire, que marcou sua chefia política com mão de ferro, dizia adotar em relação aos adversários a seguinte conduta: “Quando meus inimigos não têm rabo, eu ponho rabo neles.” Continue a ler

A Guerra de Carajás

As minas de ferro de Carajás determinaram uma guerra entre o Pará e Maranhão. É que essas minas, das maiores do mundo, pela sua localização no interior do Pará, não tinham como escoar sua enorme riqueza. Desencadeou-se uma guerra para saber como viabilizar seu aproveitamento. O escoamento seria por via fluvial ou terrestre — ferroviária? O Pará reivindicava a via fluvial, pois assim todas as receitas de sua exploração seriam naquele estado. Acontece que ele, dos mais ricos do Brasil, não dispunha de porto com o calado necessário para escoar Continue a ler