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Posse na Academia de Ciências de Lisboa

Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Portugal, 5 de maio de 1986

Confesso a minha vaidade em pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, irmã mais velha de minha Academia Brasileira de Letras. 

Agradeço sensibilizado as palavras de saudação com que me distinguiu Vossa Excelência, Senhor Professor Jacinto Nunes, nosso presidente, cujo renome internacional como economista e cujas qualidades de homem devotado a esta Academia e aos ideais emprestam um brilho especial a esta cerimônia para mim inesquecível.

Minha gratidão pelas palavras carregadas de magnânima benevolência do acadêmico José Hermano Saraiva, que não pode esconder seu conhecimento e amizade ao Brasil, ele, grande historiador e divulgador das ciências, letras e artes.

Alegrou-me sua saudação da chegada, em nome desta Casa que tem o peso dos séculos, a carga da História, o trabalho permanente que passa de uns a outros, no milagre do tempo, entre vidas, nascimentos e mortes, guardando a tradição, a perpétua memória da busca incessante do saber.

Sucedo a Pedro Calmon, escritor extraordinário, orador que uma tarde no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil saudou o Doutor Mário Soares, atual Presidente de Portugal. Escritor dos mais altos da língua, não se sabe quantos livros escreveu. Morto continua a publicá-los, como o legado de suas últimas lições. O que estou a dizer coincide com o que sabeis. Aqui sua voz foi ouvida e aplaudida. Poucos brasileiros, e, talvez, poucos portugueses saberiam tanto sobre Portugal quanto ele o sabia, graças à sua paixão sobre o passado.

Esta academia tem objetivos bem diversos daqueles em que se fundaram as academias. Portugal vivia um tempo de grandes mudanças. Seu desejo era “propiciar pelo estudo o desenvolvimento econômico e a indústria”.

Aragão Morato, que sintetizou estas ambições, explica que seus criadores “… animados por um varão ilustre que, cultivando as letras desde os seus primeiros anos e havendo examinado os progressos que elas haviam feito nas cidades polidas da Europa, as desejava ver não só restauradas, mas vulgarizadas na sua pátria, estabeleceram esta Academia das Ciências…”

O objetivo não era circunscrevê-la a elites nem restringi-la ao exercício intelectual de alguns, mas vulgarizar os benefícios da ciência, democratizá-los de modo a servir a todos. Aí estava o espírito moderno, o sentido social, a vocação do bem comum, a cultura como um bem coletivo.

Veja-se que a Academia das Ciências não nasceu para difundir a ciência, as letras e as artes, nem para popularizá-las, mas para vulgarizá-las, isto é, derramá-las de modo a se tornar mais do hábito, saber e costume, mais do cotidiano, o vulgo, uma forma de vida.

Naquele tempo das nobrezas, a Academia das Ciências de Lisboa nascia para a maior nobreza de todas as nobrezas, à nobreza de ser povo. Não era cultura vulgar, mas vulgarizar a cultura. Mas para difundir é preciso saber. Esse saber foi o barro do trabalho dos seus pioneiros, em busca de atualizar conhecimentos e destinação ao processo da pátria, a aliança da ciência e da técnica a serviço do homem.

Foi assim que, num tempo de delírio, José Joaquim de Barros, há duzentos anos, em tempo inaugural dissertava sobre o movimento progressivo da luz nos espaços celestes, divagando sobre o infinito, imaginando equações, medindo estrelas. Dois séculos depois, o mesmo espírito, com a mesma força, voltaria, com outras memórias, outras buscas de conhecimento com Tiago de Oliveira e Epstein no manejo dos avanços dos estudos estatísticos, no estudo das coisas atuariais. Exemplos não faltam nesta comparação dos tempos.

Os compêndios sobre agricultura, memórias econômicas, flora farmacêutica, elementar portuguesa, no passado e, nos tempos modernos, o conhecimento científico de Angola, estudos de geologia, paleontologia e micologia, são afirmações permanentes do espírito do saber para todos, aplicado e não o puro exercício intelectual das letras e das artes.

Mas não se diga que estas foram abandonadas. Pedro José da Fonseca traçava o plano do Dicionário Português em 1780 e em 1983 Monsenhor Delgado editava o Glossário Luso-Asiático.

É o espírito vivo desta academia. É Portugal, somos nós, herdeiros da aventura desse povo heroico e santo. É o sentido do passado e a visão do presente. Ser antigo e ser moderno, ser universal quanto mais foi local. “O mundo começa dentro de casa” dizia Andrade Figueira, um brasileiro do século XIX.

Senhores acadêmicos,

Sou político e escritor. A sensibilidade do escritor esteve a serviço da política, porque a política tem muito de sonho e realidade.

Desejo expor algumas ideias, que defendo há muito tempo, e tento concretizar agora, sobre o problema cultural.

Os valores da sociedade industrial são valores materiais. Os valores culturais vão sendo trucidados. A sociedade industrial, na afirmação de Strauss, está “segregando toxinas psicológicas”. A quantidade dos bens passou a ser mais importante do que a qualidade de vida.

Bergson, no início da Segunda Revolução Industrial, reclamava um “suplemento de alma”, para o descomunal corpo tecnizado da cultura de nosso tempo.

O que se percebe hoje, em todos os países desenvolvidos, é o que o planejamento operou milagres e só ele pode obter sucesso na organização dos fatores de produção. Não é o planejamento que está em questão, e sim a sua redução aos interesses do sistema de produção. O que se reclama não é a redução do planejamento, mas a sua extensão a outros campos que não os de interesse da produção e do consumo de massa.

Na medida em que esse planejamento é insuficiente, isto é, na medida em que ele só contempla os interesses do sistema industrial (expansão contínua de produção, aumento contínuo de seu consumo, preferência pelos seus bens contra o lazer, dedicação total às mudanças tecnológicas, autonomia para a tecnoestrutura e o suprimento adequado de material humano treinado) reduz-se o nível de aspirações do homem ao que é material, ao que pode ser produzido em grande escala.

Assim, torna-se fácil atribuir e justificar recursos para aumentar a produção de bens, enquanto não se percebe a importância de outras atividades não diretamente ligadas com o sistema.

Esse desequilíbrio pela mobilização da sociedade para reduzir seus interesses ao nível dos bens colocados no mercado pelo mundo industrial está gerando uma contestação radical da cultura em que vivemos. Os jovens e os artistas já perceberam que os padrões de comportamento objetivo exigidos são objetivos apenas na medida em que tomam o homem como uma unidade de produção e de consumo de bens.

A visão de uma sociedade dominada pela técnica e pela organização, mas impotente para compreender que o homem não se reduz ao que produz e ao que consome, gerou uma literatura, uma arte e uma sociologia da contestação.

Assim, a sociedade que estamos criando sofre a mais radical contestação, não de seus inimigos ideológicos, mas justamente por parte daqueles a quem ela promete um mundo de abundância e bem-estar. “O nosso mal-estar nasce da preocupação exclusiva com o bem-estar”, disse um dos filósofos da contracultura.

Seria ingênuo e perigoso supor que esse movimento, hoje universal, é passageiro ou que pode ser suprimido. O certo é estudarmos as suas raízes, que são as mesmas de nossa concordância, e tirar a lição política que esse movimento encerra na sua insólita e crua negação dos valores que consideramos dignos de defesa.

A técnica veio para ficar. Não podemos prescindir de soluções técnicas para problemas cuja complexidade ultrapassa a nossa compreensão comum. Cabe, entretanto, estar atento para as deformações da redução dos interesses do homem e não cair nessa passividade que gera o mais pobre e o mais desconfortável conforto que a humanidade já conheceu.

Que haja recursos para a pesquisa, para a invenção e para a produção de novos bens, mas que se destinem, também, recursos para as artes, para a literatura, para as pesquisas históricas, para as ciências, para a defesa do patrimônio cultural.

Como exemplo da tecnologia a serviço desses valores culturais mais amplos, estou trazendo para ofertar à Academia das Ciências de Lisboa um banco de dados com 400 mil verbetes do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, 70 mil do Dicionário da Academia Brasileira de Letras, de Antenor Nascentes, e informações sobre 12 mil escritores do Brasil, de Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé-e-Príncipe, aos quais se poderão incorporar futuramente escritores de Macau e Timor.

Através dos computadores, que serão aqui operados e postos à disposição das consultas do público, manteremos permanente intercâmbio com a Academia das Ciências para constante atualização e enriquecimento do programa.

Senhor Presidente,

Ao falar nesta academia, não posso deixar de dizer que, assim como o presidente não pode abandonar o escritor, este não pode deixar de exigir do presidente a preservação dos valores culturais, porque mais altos e impostergáveis, sem os quais o homem é apenas uma aspiração de engordar. E aqui encontro-me em absoluta confluência com o Presidente de Portugal, ambos políticos, ambos escritores, juntos na mesma visão transcendental do homem.

Ao longo do tempo vem prestando a Academia das Ciências de Lisboa uma grande e inestimável contribuição à ciência, às letras, a todo o mundo de cultura de língua portuguesa, especialmente ao Brasil.

O fundador do Estado brasileiro, José Bonifácio de Andrada e Silva, foi aqui secretário perpétuo. Desta tribuna ele anunciou o império que surgiria três anos depois, ao despedir-se voltando, aos 56 anos, à terra natal:

“E que país esse, senhores, para uma nova civilização e para novo assento das ciências! Que terra para um grande e vasto império! Banhadas suas costas em triângulo pelas águas do Atlântico; com um sem-número de rios caudais, e de ribeiras empoladas, que o retalham em todos os sentidos, não há parte alguma do sertão que não participe mais ou menos do proveito que o mar lhe pode dar para o trato mercantil, e para o estabelecimento de grandes pescarias (…) Qual outra região se pode igualar? Riquíssimo nos três reinos os da natureza, com o andar dos tempos nenhum outro país poderá correr parelhas com a Nova Lusitânia”.

Foi a liderança de um homem ligado a Portugal, tão íntimo da cultura portuguesa, que permitiu que nossa independência se fizesse sem excesso de dor e mantendo íntegro e uno o território descoberto pelos portugueses, presentes desde os pampas à selva amazônica.

Sou de uma região do Brasil que tem Portugal nas veias e nos olhos, no sangue dos que atravessaram em caravelas para a conquista do Novo Mundo, e de geração em geração mantiveram suas querências e saudades, os que primeiro chegaram para manter lembranças, para viver sujeições de bem-querer, e davam às cidades que plantavam o nome de Alcântara, Guimarães, Monção; às vilas Alcobaça, Salvaterra, Leiria; às Ruas do Ouro, da Alegria, da Viração, da Misericórdia, do Sol, do Desterro; e se abriram uma praça, no meio da mataria densa e desconhecida, onde seria no futuro a Cidade de São Luís do Maranhão, davam-lhe o nome de Campo do Ourique. E se não bastassem tantas saudades, criaram a Praça da Saudade.

Portugal nos olhos, porque a arquitetura é toda ela guardada em casarões de azulejos, escadas em caracóis, pátios internos, sacadas de cantaria, fontes como as vossas, becos como os vossos, ruas como as vossas e mais ainda, gente como a vossa. Os azulejos que aqui eram fabricados, e não eram de boa qualidade, eram mandados para lá (e já não sei se falo aqui e lá, ou lá e aqui), nos tempos de D. José I. Então eram aproveitados para evitar que a maresia destruísse o barro das casas. Em vez de interiores, os azulejos de Portugal de repente cobriram as casas do Maranhão e transformaram a cidade na Cidade dos Azulejos, porcelanas que brilham naqueles calores e sóis, e ventos que ventam de África, trazendo o passado e o gosto dos mares, são cores do Maranhão, cheios de Portugal.

Eu mesmo, há anos, em livro de versos, agora reeditado aqui em Lisboa, cantei uma fonte nossa, bem portuguesa, a Fonte do Ribeirão:

São torrentes de água e sangue
Dos heróis de Europa e África
Que aqui passaram e ficaram
São gemidos de Timbiras,
São carruagens de ossos
Nas ruas de São Luís,
Que à noite navegam à-toa,
Nesse oceano sacral,
Rossio, Alfama, Lisboa,
Saudades de Portugal.

A Matriz de São Luís era sufragânea de Lisboa, era mais fácil ir a ela do que ir ao Rio de Janeiro ou à Bahia, Pombal criou a Companhia de Comércio do Maranhão e nos mandou um sobrinho seu, Joaquim de Melo e Póvoas, como governador, recomendando-lhe:

“Engana-se quem entende que o temor com que se faz obedecer é mais conveniente do que a benignidade com que se faz amar; pois a razão natural ensina que a obediência forçada é violência, e a voluntária segura. Em qualquer resolução que Vossa Excelência intentar, observe estas três coisas: prudência para deliberar, destreza para dispor e perseverança para acabar.”

E os maranhenses expulsaram os holandeses em 1640. Pela bravura receberam del Rei de Portugal, pelas provisões régias de 15 a 20 de julho de 1655, os mesmos privilégios de que gozavam os cidadãos do Porto, concedidos pela Carta Régia de 1-7-1490, no tempo da revolução de Dona Maria da Fonte; e entre esses privilégios, que eu tenho, está aquele de:

“O gozarem de todas as graças, liberdades e privilégios dos de Lisboa, mesmo andarem em bestas muares…”, “portar espadas com bainhas de veludo, usar terços dourados, punhos de fio de ouro e trazer roupas de seda…”

Josué Montello, que aqui está, de fardão, exercia esses direitos, direitos que foram ratificados em Carta Régia de 24-7-1736, de 1-6-1755 e de 8-2-1762.

Conheci Portugal pelos ensinamentos, pelas paisagens dos seus escritores, pela lembrança dos seus filhos e pelo amor brasileiro. As primeiras coisas podiam existir, mas não existiram sem o amor brasileiro; sem este, certamente, não se repetiria aquilo que não se repete em lugar nenhum do mundo e em relacionamento com nenhuma nação; este sentimento que nos liga a Portugal e a todo o mundo de fala portuguesa. Onde se falar “a névoa da apagada e vil tristeza” e for assim entendido, aí estará o sentimento do amor.

Amor proibido de um caboclo maranhense por uma maranhense “branca” teve em Lisboa seu desfecho poético. Nestas ruas, Gonçalves Dias encontrou sua Ana Amélia, ambos casados, ambos infelizes, e deste encontro nasceram os versos que, como meus companheiros, aprendi na minha juventude para não mais esquecer:

Enfim te vejo. Enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
…………………………………………………
A não lembrar-me de ti”.

Aqui, também em Lisboa, soou o desafio do Maranhão, na palavra de ferro e fogo do Padre Antônio Vieira, que pregou em nossas igrejas. Ali viveu grande parte de sua vida e teve oportunidade de dizer, de suas lutas pela catequese, que, se torcesse sua batina andarilha, não saía suor, mas sangue. E depois, velho, indagado sobre onde desejava morrer, respondeu:

“No Maranhão”.

Ele escreveu a D. João IV sobre a responsabilidade dos que escravizavam índios, os maus administradores coloniais, e invocou o Espírito Santo para proteger os que governavam, dizendo que aquele tinha espinho nos ouvidos, para que as palavras não entrassem de uma vez só. Era a lição de Pombal, que os governadores tenham dois ouvidos, um para ouvir o presente, outro, o ausente.

De Vieira, nada mais que o verso de Fernando Pessoa:

“Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da Língua Portuguesa,
Foi-nos um céu também.”

Simão Estácio da Silveira, um dos navegadores portugueses do século XVIII, que andou naqueles mares e naquelas terras, disse:

“Eu me resolvo que esta é a melhor terra do Mundo, onde os naturais são muito fortes e vivem muitos anos, e consta-me que, das que correram os portugueses, a melhor é o Brasil, e o Maranhão é o Brasil melhor”.

A minha terra deve à Academia Real das Ciências de Lisboa a edição, em 1812, do manuscrito encontrado na Biblioteca do Terceiro conde de Ericeira, Jornada do Maranhão, em que se relatam os sucessos da Conquista do Maranhão, documento este somente há quatro anos editado no Brasil e que tive a satisfação de prefaciar. Nele há um episódio extraordinário: Jerônimo de Albuquerque, conhecedor profundo das Guerras da Conquista, quase sexagenário, lutando nas praias desertas do Maranhão no século XVII, antes da batalha, chama o seu capitão Diogo de Campos Moreno, e com ele aposta suas ambições, o espólio da batalha.

“— Apostemos umas meias de seda, que antes de sábado tenho índios do Maranhão…”

Diogo de Campos lhe responde:

“— Sou contente de as perder… Porém se as ganhar lembro que más há de dar Vossa Mercê”.

E ficamos portugueses para a eternidade, expulsando os franceses, nas disputas destas mágicas “meias de seda”.

Senhores acadêmicos.

Não é por falta de evocações que eu mudaria aqui o gosto de falar de nosso barro comum, oleiros de nossas querências: é a necessidade do tempo.

Eu não falo de Portugal pelo que eu vi, mas pelo que eu li e vivi.

Não posso vos encantar, como o fez meu conterrâneo, Odylo Costa, filho, das mesmas terras do Maranhão — a vos falar da água cantante da Serra da Estrela, do Mercado de Covilhã, do Alto de Mogadouro, das Pedras de Algarves, perto das falésias onde se debruçara o sonho do Infante; nem das açoteias, nem de ouvir o mirandês, da aldeia transmontana. Nem vos transmitir o saber de José Antônio de Freitas, amigo de Eça de Queiroz, amigo do Rei D. Luís, primeiro maranhense a pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, grande tradutor de Shakespeare, extraordinário revolvedor de papéis históricos na Torre do Tombo e a quem devemos, segundo Rui Barbosa, a descoberta do documento fundamental que nos permitiu ganhar a causa das Missões.

Minha Lisboa tem ainda o tempo dos Cafés Martinho e Montanha, a Perfumaria Godefroy, a Taberna Inglesa, o Cassino Lisboense, no Largo da Abegoaria, que soube ter-se transformado em Bordalo Pinheiro, que nem o tempo nem a vida me deixaram ver com os olhos, e como são sonhos, passo a dizer como o Mestre Jorge Luís Borges que só o sonho é eterno porque não se modifica nunca.

Portugal sempre foi um sonho constante em minha vida. Uma mudança qualquer em qualquer sonho é sonho.

Acompanhei os Monges dos Jerônimos que mais recentemente vivi nas páginas escritas por Cândido Dias dos Santos, no seu livro Os Monges de São Jerônimo, em que o mosteiro deserto e lento, em ver-se olhado, nos olha indiferente, a nós que passamos, enquanto definitivas ficam nos mármores brancos as invisíveis sandálias de oração onde pastoreiam as noites da eternidade entre as redondilhas e os sonetos de Camões, e ecoa para sempre o cantar dos Lusíadas.

Manuel Bandeira, o grande poeta brasileiro, daqueles que moram no Olimpo, que este ano completa cem anos do seu nascimento, num soneto muito difundido no Brasil dedicou-lhe estes tercetos admiráveis:

“Enquanto o fero canto ecoar da mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada Continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A Língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.”

Góngora dizia que o tempo tem carícias para as coisas velhas. E com carinho que me permito recontar à Academia das Ciências de Lisboa o meu caminho acadêmico.

Contei na Academia Brasileira de Letras:

— Eu era bem jovem, publicara a Canção Inicial e, festejado na província, elegeram-me para o que se chamava o “Alto Sodalício”. Escrevi ao velho avô, que morava na roça, lavrando a terra de machado e foice num lugar que ele mesmo batizara de “Salvação”, dizendo do meu grande feito e da minha alegria. Com a notícia chegada, soltaram-se fogos de festa naquela casa de barro, e houve sorrisos e orgulhos. A vizinha, Dona Tudinha, sem saber o motivo perguntou ao Velho a razão de tanta folgança:

“— Meu neto José entrou para a Academia”.
E ela, curiosa, perguntou:
“— E o que é Academia, seu Assuero?”

Ele respondeu:

“— Eu não sei. Eu sei que é coisa grande”.

Coisa grande, aqui se guardam os valores espirituais.

Acadêmico, no Maranhão, da Academia Brasileira de Letras, sócio da Academia das Ciências de Lisboa.

É coisa grande.

Maior de todas.

Agradeço-lhes, a todos e a cada um, a unanimidade da escolha, a grandeza do gesto.

Agora peço licença. Vou sentar-me, à espera da passagem do tempo.

Algum dia, um estudante em tese de mestrado descobrirá. o orgulho escondido desta noite em que o Presidente do Brasil viveu as alegrias da generosa alma lusitana. O poder era nada, o espírito era tudo, e se for pouco é grande. Se for grande é glória.

Vim a Portugal para aplaudir. Aplaudir o povo português, a que também pertenço por minhas origens. Aplaudir seu Governo, na pessoa do Presidente Mário Soares, e do Ministro Cavaco Silva. Aplaudir os oito séculos de glórias de vosso passado heroico, em que também se insere a formação histórica na nacionalidade brasileira. E aplaudir, repetindo Eça de Queiroz, no fecho de A ilustre Casa de Ramires, esta formosa terra de Portugal, tão cheia de graça, para que sempre bendita seja entre as terras.