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A Palavra do Sarney

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Sem e com a toada do Boi

Nessa imensa tragédia da pandemia de Covid-19 — que atinge números difíceis de imaginar, crescendo agora a 50 mil casos por dia e já sendo mais de um milhão e meio, com mais de 60 mil mortes — ficamos em casa, no necessário isolamento para que a calamidade seja menor e perdemos o convívio diário com a família e os amigos. Mas no mês passado o que faltou também foi a alegria de tambores, matracas, a alegria da festa que toma conta da cidade. As festas juninas devem ser uma Continue a ler

Norte-Sul chega a São Paulo

Mais uma vez escrevo sobre a Norte-Sul, a estrada de ferro que eu lancei como Presidente da República e que naquela época foi combatida de toda maneira, chamada de, como foi a Belém-Brasília, estrada das onças — que ligava o nada a coisa nenhuma —, mas com o passar dos anos fez todos os críticos morderem a língua e pedir desculpas, desfazendo as críticas. E a Norte-Sul fez parte dos programas de todos os governos que me sucederam. Ainda consegui fazer o trecho Itaqui-Estreito, a ponte sobre o Rio Tocantins, Continue a ler

Quarentena, solidão e medo

Nunca pensei em minha vida que passaria meses em prisão domiciliar, sem culpa nenhuma, mas por absoluta necessidade de autodefesa. Só que esta circunstância também é inédita no mundo, pois jamais a Humanidade esteve sob a ameaça de um vírus de ação tão “eficiente”. Ele veio montado na globalização dos meios de transporte, capazes de cobrir o mundo em vinte e quatro horas. A quarentena, na acepção de reclusão e isolamento para evitar contágio, é atualmente a única maneira que temos para evitar a Covid-19. O esforço mundial para descobrir Continue a ler

Meu Destino é Sofrer

A cena trágica do assassinato cruel de George Floyd em Minneapolis, nos Estados unidos, mais uma vez põe como fratura exposta a situação racial americana, viva em seus requintes de brutalidade e sordidez. Em nenhum lugar do mundo esse problema de discriminação permanece com as características de tanta violência quanto ali. As raízes remontam à escravidão — como aqui —, que precisou de uma Guerra Civil para ser legalmente banida e teve como um de seus marcos o assassinato do grande presidente Lincoln, que teve a coragem de enfrentar o Continue a ler

O perigo é maior

A humanidade foi surpreendida por uma ameaça que, embora profetizada por esporádicas vozes, nunca foi levada a sério. Ao longo de nossa história atravessamos muitas doenças que dizimaram populações inteiras, mas todas elas foram superadas. A última grande e fundada ameaça foi a descoberta da fissão atômica. Ele deu ao homem o domínio de liberar forças gigantescas, capazes de destruir imensas regiões da Terra. A primeira noção que tivemos da brutalidade desse poder veio quando, estarrecido, o mundo viu as tragédias de Hiroshima e Nagasaki. E não existe nenhuma garantia Continue a ler

A Saga do Ministério da Cultura

Durante o meu governo, na elaboração do Plano Verão, trouxeram-me o esboço dos cortes que pensavam que devíamos fazer: a primeira coisa que ali estava era a extinção do Ministério da Cultura, por mim criado no dia em que assumi a Presidência da República, 15 de março de 1985. Quando li, minha primeira reação foi uma pergunta indignada: “Os senhores ou querem me ofender ou não conhecem a minha carreira parlamentar. Pois saibam que minha causa parlamentar foi a cultura, fiz dezenas de discursos e apresentei vários projetos de lei Continue a ler

Uma escolha sem Sofia

Estamos diante de uma ameaça sempre temida ao futuro da humanidade: as doenças desconhecidas. Ao longo da história dos seres vivos que habitaram o nosso planeta, milhões de espécies já desapareceram. Para citar o episódio mais fascinante, citemos os dinossauros, que em teoria foi provocada por um meteoro gigante que caiu no Golfo do México, transformando a atmosfera, devastando todo o planeta e levando de roldão quase toda a vida, extinguindo muitas espécies, inclusive as mais bem-sucedidas entre elas, as dos gigantes sauros. Mas nada nos diz que não tenha Continue a ler

Uma cantora do Maranhão Novo

Em casa, na solidão em que me encontro do Covid-19, chega uma notícia que me traz nostalgia. Cem anos do nascimento de Elizeth Cardoso, a grande cantora, a Divina, dos meus tempos de moço. A conheci no Rio de Janeiro, deputado federal, em 1955. Ela cantava numa casa de show, aonde fui levado pelo nosso sempre saudoso e inesquecível Henrique de La Rocque, de quem ela era amiga. Quando terminou o espetáculo La Rocque levou-a para tomarmos um drink. O Rio de Janeiro, como disse Hemingway de Paris, era uma Continue a ler

A Briga das Canetas

O poder e a caneta têm uma relação íntima, às vezes libertina. Mas ultimamente ela tem sido explícita. A primeira vez que ouvi uma definição precisa sobre essa relação foi, nos longínquos anos de 1968, de Plácido Castelo, ele governador do Ceará, eu do Maranhão. Disse-me, mostrando uma caneta: “Sarney, nós, governadores, com esta bichinha poderosa, podemos fazer a felicidade e a infelicidade, nomear, demitir e ameaçar. Mas ela tem um defeito. Quanto acaba a tinta, não serve para mais nada.” A tinta acabava com a eleição do sucessor. A Continue a ler

90: saudades e esperanças

Meus olhos se abriram para o mundo às 7,30 horas de uma cinza manhã de abril, de 1930, depois de noite de um parto sofrido — minha mãe primípara, quase uma menina de 18 anos —, numa casa de chão batido, de 55 metros quadrados, na ainda pequena, quase uma vila, Pinheiro, onde tínhamos chegado há trinta dias, terra cercada dos mais belos campos do mundo, de capins verdes e flores amarelas formando um tapete no meio das águas do Pericumã, saídas do seu leito pelo mundão das chuvas do Continue a ler

Sarney faz noventa anos

Em abril de 2020, o Presidente José Sarney chega aos noventa anos de idade. Destes ele passou 66 anos como político, 60 deles com mandato eletivo. Atingiu assim a mais longeva trajetória política da História do Brasil: mais tempo do que D. Pedro II, mais tempo do que qualquer político do Império, inclusive do que os senadores vitalícios, mais tempo que qualquer político da República. Ao mesmo tempo, teve uma extraordinária carreira como escritor — contista, poeta, romancista, ensaísta, cronista e orador —, tendo publicado 122 títulos, com 172 edições. Continue a ler

Maurice Druon: sobre “Saraminda”

  O Universo das Paixões Absolutas Saraminda é, eu creio, o melhor romance de José Sarney. O leitor não se desprende de sua  leitura repleta dessa mistura tão particular de verdade naturalista e de fantasia trágica que caracteriza seu talento. O “Contestado” e “la couleur” instalam-se em nossa imaginação. Sarney destaca-se na pintura da floresta equatorial, da Caiena de outrora, das técnicas e da vida terrível dos garimpeiros. E a gente sente a proximidade do Maranhão. E, além disso, estamos no universo das paixões absolutas, com essa Saraminda, enfeitiçada e Continue a ler

Josué Montello: sobre “O Dono do Mar”

Um romancista que desponta Eu assisti, em 1952, em São Luís, à estreia de José Sarney, com a publicação de A Canção Inicial. Por esse tempo, era ele um jovem poeta. Cedia ao impulso da idade e da geração a que pertencia, antes que nele despontasse o político, obrigando-o a seguir por outro caminho. Os contos de Norte das Águas, publicados 18 anos depois, sem de todo romperem com a poesia, como forma de expressão genuína, deslocavam o poeta lírico para o plano da realidade regional, numa prosa que, não Continue a ler

Ivan Junqueira: sobre “Os Maribondos de Fogo”

  Poética de Raízes Muito estimado entre nós como ficcionista — Norte das Águas (1969), Brejal dos Guajas e outras Histórias (1985) e Saraminda (2000), além de outros — é todavia como poeta que José Sarney estreia na literatura brasileira, mais precisamente em 1952, quando publicou A Canção Inicial. Tem assim o poeta José Sarney meio século de existência, o que lhe atesta não apenas uma pertinácia de ofício, mas também uma inequívoca vocação lírica, pois, logo adiante, em 1979, retorna ele ao verso com Os Maribondos de Fogo, que Continue a ler

Marcos Vinicios Vilaça: sobre “A Duquesa Vale uma Missa”

  Leitura leve e instigante Em seu novo romance, A Duquesa Vale uma Missa, José Sarney mostra a variedade de seu espaço ficcional. Depois de O Dono do Mar, sobre o universo poético dos pescadores da ilha de São Luís do Maranhão, e Saraminda, sobre os mistérios da epopeia do ouro na região do Contestado entre o Brasil e a França — atuais Amapá e Guiana Francesa —, Sarney investe num romance urbano, passado entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Seus personagens se apresentam ainda, como nos romances Continue a ler