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Noé Jitrik

Noé Jitrik•

Escritor, crítico e professor. Considerado o mais importante crítico literário da América hispânica. Por ocasião do lançamento de Saraminda, na XV Feira Internacional do Livro, Guadalajara, México, 3 de dezembro de 2001.

 

O jogo de duas forças

O fato de que José Sarney seja ex-presidente de um país, o que não é ser ex-presidente de qualquer entidade, pode condicionar em certa medida a leitura de seus textos — me condicionou, sem que eu possa medir até que ponto — influi, é inevitável, inibitoriamente; mas quando alguém não tem qualquer inibição desse tipo, ela desaparece rapidamente neste caso porque sua literatura não é padrão, mas de desespero. É preciso dizer: não é corrente que um presidente, um ex-presidente, navegue nessas águas embora também seja certo que não é o primeiro caso de alguém que depois de atravessar as portas do principal cargo político se ponha a escrever. Há antecedentes célebres: De Gaulle, por exemplo, era um grande escritor; Churchill também o era, mas escreviam suas memórias, não romances desesperados como o de Sarney. Sarney se parece um pouco mais com o ex-presidente Manuel Azaña, que, enquanto estava esmagado por problemas políticos tinha nostalgia da literatura.

Mas estamos aqui falando de Saraminda e não de ex-presiden- tes; precisamente, o primeiro que posso dizer é que com este romance Sarney passou a outra tribo, a nossa, pelo que agradeço, mas devo falar em nome pessoal, porque me permitiu fazer algumas associações, pelo que tenho uma vontade irrefreável, que espero sejam gratificantes para todos, em especial para o autor.

O romance tem como centro — em outra época teria dito “centro produtor” — o ouro, imagem e símbolo de valor, miragem e recompensa, tragédia e esperança de redenção. O descobrimento do ouro e sua exploração por esses personagens tão singulares, chamados garimpeiros, cuja sorte literária foi muito grande talvez só porque eram seres presos pela cobiça, que viveram e morreram na pura exaltação do metal. Esse “centro” é uma imagem que tem a virtude de convocar outras, necessárias e complementares, no puro universo literário, como, é inevitável recordar, esse maravilhoso livro de Blaise Cendrars, O ouro, que descreve a Califórnia tão bem capturada pouco depois por Chaplin no seu inesquecível Em busca do ouro. A imagem também invoca o tratamento narrativo e os tópicos que engendra. Mas em Saraminda, o ouro, como tópico desencadeante, logo se oculta, como se recuperasse seu lugar próprio, ou seja sua veia, para deixar que tome forma uma estrutura fantasmagórica e fantástica, que se condensa na imagem de um povoado que pode ter florescido pelo ouro mas que, quando o ouro se escondeu, sumiu em ruína, se devastou. Este deslocamento leva a duas evocações propriamente mexicanas que não gostaria de omitir.

A primeira tem que ver com o fato de que um povoado mexica- no, Real del Castillo, na Baja California Norte, teve sorte parecida; gozou igualmente da ilusão do ouro prematuramente, em fins do século XVII, e quando o metal se retirou das veias entrou em decadência enquanto, por causa do ouro, havia chegado a ser capital do Estado. Hoje não é mais do que um povoado fantasma, com casas de madeira abandonadas e largas ruas de terra vermelha pelas quais passa o vento, sombra de uma época em que a riqueza era o metal que fundava, além disso, a identidade das nações; moeda de troca, garantia de legitimidade, consagração das vidas.

A segunda, mais intimamente vinculada ao relato de Sarney, se relaciona com a Comala de Juan Rulfo, outra presença fantasmagórica, que preside o lugar em que estamos e também a região. Em Pedro Páramo Rulfo não se contenta com sua própria e futura fantasmagoria mas faz falar fantasmas e o que dizem constitui a substância de seu relato, do mesmo modo como faz Sarney: Saraminda se constitui com as vozes perdidas que alguém trata de recuperar por meio de uma estrutura narrativa de redes. Com efeito, há fantasmas que aparecem falando neste romance mas que não só personagens, como o são nos textos de Henry James, mas também os fantasmas do próprio narrar já que toda narrativa fantasmiza aquilo que narra. Esta variante é, me parece, uma das forças que possui Saraminda. Assim, não se trata de um presidente que conta suas aventuras ou desven- turas mas de um escritor inscrito em uma rede de escritores que se perse- guem reciprocamente, também como fantasmas.

Mas o texto de Sarney nada deve ao de Rulfo, apesar de sua comum fantasmagoria, conceito mais evasivo possível, por definição, por- que o que é um fantasma? Tento uma aproximação, que desde há anos me dá voltas pela cabeça, e que todo relato com fantasmas me atualiza: “Fantasma é um ser insatisfeito que não pode estar conosco nem tampouco abandonar-nos.” Serve de alguma coisa dizer isto? Fantasmas que são todas as lembranças, memória e literatura, transformações, abandonos e deseos, como tudo o que se reúne no texto de Sarney.

Encontro, por outro lado, em Saraminda, o jogo de duas forças. Uma de ordem pulsional, que reside no ritmo, ou, como diria Saramago, nas cadencias particulares da narrativa: frases curtas e adjetivos impactan- tes, insólitos, novidades de expressão, tudo isso articulado faz com que não se possa abandonar a leitura. A outra, é a evidente vontade de estruturação que produz um texto armado, uma estrutura de partes articuladas, em que nada perturba nem rompe um equilíbrio. A lógica interna é rigorosa, a progressão irreprimível.

Disto se tira outra coisa, o que eu chamaria de insólita trans- formação do referente. Este conceito é amplo ou inclui, de maneira clara, o geográfico: a zona está delimitada e está marcada pelo trópico, palavra e conceito que abarca a noção de proliferação, onde tudo é desmesurado, as distâncias são esmagadoras, os seres se multiplicam, as plantas e os riscos sobreabundam. Zona extraordinária a do trópico, por distante, mitológica e proliferante: é a que suscitou múltiplas representações através de escritas igualmente tropicalistas e proliferantes que às vezes são chamadas barrocas, outras simplesmente excessivas. Pareceria que o mundo narrado, ou seja o referente, lhe exigiu com as palavras que responda a sua qualidade proli- ferante. É o que podemos chamar “tropicalismo”, do qual Gabriel García Márquez tomou uma distância artística apesar de que seu imaginário pode se haver formado nesse âmbito, tanto físico como literário. É também o mérito de Sarney neste texto: libertado do influxo da realidade representa- da a narrou em outra chave literária, com um distanciamento que lhe per- mitiu construir um texto e escapar de uma homenagem a sua terra natal.

Quando leio um livro, todo tipo de livro, me pergunto, pondo à prova a índole de minha leitura, se o aprovo e por que o aprovaria. Sendo minha aprovação somente um caso de satisfação de minha própria poética. Neste caso, esse distanciamento me satisfaz porque se torna distanciamen- to poético, mas não menos por me encontrar na relação mágica e fantasmagórica que não só é condição de personagens mas resposta literária, intrisicamente fantasmagórica. A literatura, me atreveria a dizer, em minha poética, que se encontra neste romance, é o fantasma encarnado em um texto, em uma história, em uma narrativa.

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