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Um Novo Modelo de Sistema Mundial

Senado Federal, Brasília, DF, 20 de agosto de 1975

 

“O Momento Crítico da Humanidade”

O momento dramático em que vive o homem contemporâneo impõe uma tomada de posição a todos os que, em qualquer parte do mundo, detêm alguma parcela de responsabilidade pelo destino da coletividade. A hora crítica que atravessamos é oportuna para uma participação efetiva nas cogitações sobre o futuro da humanidade.

Sem o pessimismo das cassandras, que preconizam a iminência do Apocalipse irrecorrível; sem os erros de avaliação de futurólogos, que se prendem no tecnicismo das previsões unilaterais, e mesmo sem o otimismo de profetas modernos, de formação científica, como Renê Dubois, que acredita na salvação do homem pela superestimação do instinto de sobrevivência, acreditamos que só um esforço de toda espécie permitiria alcançar a conscientização imprescindível à neutralização dessa ameaça. Essa ameaça envolve aspectos os mais alarmantes para a humanidade, sobressaindo-se o da fome, como consequência primeira da explosão demográfica, em flagrante contraste com a gradativa extinção dos estoques de alimentos.

Não podemos permanecer estáticos quando também sentimos na carne o problema que já se evidencia, em cores bem nítidas, nas regiões onde mais acentuado é esse contraste. Cabe a nós, legisladores, com base nas pesquisas, a adoção urgente de política interdependente que possa preservar o homem, em sua integridade, por meio da preservação do seu habitat. O sistema mundial emergente impõe-nos, a partir de agora, uma reformulação completa de estruturas e planejamento.

Além da alimentação, que se situa obviamente em primeiro plano no âmbito das cogitações dos povos, afloram, como problemas críticos do momento, o próprio meio ambiente mutilado ou já completamente descaracterizado pela poluição; a precariedade energética, agravada pela crise mundial do petróleo; as disparidades decorrentes do desenvolvimento econômico. Essa guerra diária trava-se em dois fronts, com visível desvantagem para o homem, em qualquer uma das modalidades: é a luta do homem contra a natureza e a luta do homem contra o próprio homem. Se impedir o crescimento deixou de ser uma atitude arbitrária do conservadorismo mais reacionário, porque o determinismo histórico tornou-se praticamente impossível, nem por isso deixamos de resvalar em outro equívoco grave: o de confundir meios com fins. O crescimento, como um processo, é um meio e não um objeto, ou seja, um fim.

É chegado o momento de meditarmos, seriamente, na adoção de um modelo de sistema mundial, de modo que os projetos das nações convirjam para um objetivo comum, o objetivo maior que deve unir-nos, por cima das ideologias e das idiossincrasias, e que é o da salvação do homem.

Da advertência pioneira de Malthus, em 1805, à evidência trágica dos dias presentes, de que só estamos vivos graças às catástrofes periódicas, às epidemias, guerras e desastres, que ironicamente têm servido para assegurar o equilíbrio populacional, todos os fatores confluem para uma só dedução: a de que é hora de começarmos a arrumar a casa.

Se já dispomos dos dados que configuram a síndrome, não há por que adiar a solução terapêutica. Quando a constatação ganha relevo de obviedade, apenas fornecemos recursos ao inimigo, se insistimos no comodismo niilista. Fala-se, por exemplo, com insistência, no limiar da saturação, em promover o equilíbrio ecológico. É muito saudável que, à força de catequese, de proselitismo, de persuasão subliminar, todos se deem conta da verdade que, no fundo, se esconde por trás do charme dos soi-disant, os conferencistas da moda, apologistas do dernier cri.

Mas não basta saber que o primeiro passo para a fixação do modelo mundial é a conquista da estabilidade ecológica. Estamos fartos de ser informados de que, entre as espécies da fauna e da flora, de cuja falta já nos ressentimos ou nos ressentiremos em futuro próximo, há as que são eliminadas intencionalmente e há as que vivem sob permanente ameaça de extinção pelos predadores impunes. A interferência da química, não somente através do uso criminoso na guerra, como na paz, dos campos agrícolas, criou um impasse que permanece insolúvel. Usamos pesticidas, inseticidas e detergentes para combater doenças e parasitas, mas com isso vamos poluindo a lavoura e intoxicando os rebanhos. Os próprios aparelhos criados para combater os efeitos da poluição, conforme já detectado pelos especialistas, apresentam índices perigosos de contaminação poluidora. Ora, isto parece bastante eloquente para nos advertir que vivemos uma época dinâmica, em que a obsolescência aponta de maneira prematura, a ponto de experts em marketing terem criado o slogan de que se uma coisa funciona a contento é sinal de que está obsoleta.

Isto quer dizer que não podemos nos contentar, hoje, com as soluções encontradas ontem, porque o problema terá outras conotações no amanhã. A velocidade da Era Espacial fez caducarem valores acadêmicos dos planejamentos a longo prazo, porque as mutações que se registram em todo o mundo, com reflexos diretos ou indiretos em toda parte, exigem um novo conceito de planejar. E esse conceito não exclui, antes impõe, uma efetiva interassimilação de interesses.

Ainda há pouco, como assinalam Pestel e Mesarovic, no famoso relatório do Clube de Roma, no segundo relatório, que foi o documento que me fez meditar mais profundamente sobre a necessidade desses discursos no Parlamento brasileiro, dizia:

“Em primeiro lugar, o sistema mundial era tão fracamente estruturado que soluções locais, nacionais ou regionais eram factíveis. Segundo, quando um problema era identificado, havia tempo suficiente para encontrar uma solução, porque o ritmo de mudança era lento. Mesmo que a plena execução de uma solução devesse levar dez, vinte ou trinta anos, o problema seria essencialmente o mesmo, em qualidade e magnitude, que era ao tempo em que a solução foi proposta. Hoje, porém, é mais rápida a marcha dos relógios. O conhecimento adquirido na escola e na universidade e a experiência ganha na prática logo se tornam obsoletos.”

O Sr. Agenor Maria – Permite V. Exa um aparte?

O SR. JOSÉ SARNEY – Com muita honra.

O Sr. Agenor Maria – Aparteio V. Exa pedindo permissão para registrar, no seu discurso, um problema que vem acontecendo já há alguns anos no Nordeste, em termos de inseticida. A cada ano que passa desaparecem mais os peixes dos açudes, os urubus e os animais carnívoros, e aparecem mais as pragas. O uso desordenado de inseticida, em termos de Endrex e Aldrin, vem criando, realmente – e V. Exa tem toda razão –, uma situação muito delicada na lavoura deste País. Muito obrigado a V. Exa.

O SR. JOSÉ SARNEY – Muito obrigado, Senador Agenor Maria, pela contribuição valiosa que dá ao meu discurso, V. Exa, que hoje, nesta Casa, é um nome firmado pelo seu espírito público e pela decisão com que debate os problemas nacionais.

Há três anos, tive oportunidade de fazer, aqui, um pronunciamento sobre os problemas ecológicos vividos pela humanidade e chegados ao nosso País, ao tempo em que se fazia a Conferência Mundial em Estocolmo. E, naquela ocasião, disse que tínhamos, no Brasil, condições que os outros países não dispuseram porque aderíramos ao processo de desenvolvimento um pouco mais retardadamente e assim teríamos oportunidade de corrigir os erros que a civilização industrial não pôde corrigir nas nações mais avançadas. Acrescentamos que, se a nossa geração de hoje, acima dos problemas políticos e das contingências do momento, não tivesse capacidade de prever os problemas do futuro, evidentemente, a qualidade da vida no nosso País não seria, dentro de um prazo razoável, aquela que nós devíamos doar aos brasileiros que virão depois de nós. Muito obrigado pelo aparte de V. Exa.

As estatísticas, como os cálculos de probabilidades, apesar de sua funcionalidade, já não acompanham, com tanta presteza, o ritmo das exigências contemporâneas. O desenvolvimento, se quisermos evitar as atrofias que sempre resultam nefastas para o homem, porque sua meta primordial só pode ser o homem, tem que caminhar para um novo rumo. E esse rumo é o do crescimento orgânico. A fórmula será viável se soubermos regular a dialética econômica com o aproveitamento racional dos recursos naturais.

“Vivemos de fato” – dizem Pestel e Mezarovic – “num mundo extremamente dinâmico, onde precisamos olhar várias décadas adiante quando tomamos decisões que envolvem questões vitais. Uma necessidade desse tipo não pode senão exigir certas alterações num sistema baseado em um ciclo eleitoral de quatro anos.”

Penetramos, aqui, num ponto muito importante. É que o sistema mundial proposto não pode ater-se à vigência dos mandatos dos governantes e muito menos às limitações impostas pelas respectivas facções políticas. Projeto dessa dimensão estaria condenado ao fracasso, ainda no gênese, se visasse à promoção de lideranças regionais ou à exaltação de programas partidários, quando não de ideologias ávidas por penetrar no mercado externo.

Pelo contrário: quando nos avocamos o direito de sugerir uma cooperação de tamanha envergadura, estamos atentos ao problema das diversidades regionais, precisamente para assegurar a integridade cultural dos povos, nos moldes propostos pelo Papa Paulo VI.

Nem seria concebível, de resto, que, a pretexto de aplicar medidas em defesa do todo, fosse menosprezado o sentimento nacional e desdenhado o conceito de pátria. O modelo de um novo sistema mundial visa, isto sim, à integração de povos em benefícios do indivíduo. Na medida em que esse ideal for sendo atingido, quando for praticamente nula a taxa de mortalidade infantil, reduzidos os efeitos da poluição ambiental, aproveitadas na plenitude as reservas naturais e contornados os desníveis econômicos, com a valorização integral do homem, os povos, em consequência, estarão mais aptos e fortalecidos para fazer prevalecer os seus valores culturais e a sua vocação natural de liberdade, através da autodeterminação.

Como afirma o Papa: 

“Toda a experiência contemporânea aponta, portanto, para a emergência de um sistema mundial no sentido mais amplo, o que exige que toda a ação relativa às questões fundamentais em todas as partes do mundo seja empreendida num contexto global e com plena consciência de seus aspectos interdisciplinares. Mais ainda: por causa da dinâmica envolvente do sistema mundial e da magnitude das mudanças atuais e futuras, esta ação tem de ser antecipatória, de modo que as soluções se tornem operatórias antes que a crise atinja seu objetivo pleno e a sua força total.”

Para elaboração do documento, os técnicos classificam as regiões que compõem o sistema mundial como subsistemas interdependentes, e representam os sistemas de desenvolvimento regional por meio dos processos físicos, ecológicos, tecnológicos, econômicos, sociais etc.

Para auscultar mais de perto as regiões e aplicar-lhes o adequado diagnóstico dentro do contexto mundial em que se inserem, dividiu-se o sistema em dez partes, ou seja, dez regiões:

1. América do Norte; 

2. Europa Ocidental; 

3. Japão;

4. Austrália, África do Sul e o resto do mundo possuidor de uma economia de mercado;

5. Europa Oriental, incluindo União Soviética; 

6. América Latina;

7. África do Norte e Oriente Médio; 

8. África Tropical;

9. Sul e Sudeste Asiático; 

10. China.

Essa divisão, segundo explicam os autores, ateve-se a características históricas, tradicionais, econômicas, sociopolíticas e à identificação comum diante de problemas que afetam grupos de nações. Em suma, o sistema mundial é apresentado como uma federação de regiões, que, grosso modo, poderia ser dividido em três blocos:

1. O Mundo Desenvolvido, compreendendo América do Norte, Europa Ocidental, Japão, Austrália, África do Sul e outros países arrolados nos grupos de 1 a 4;

2. O Mundo Socialista, integrado pela Europa Oriental (União Soviética) e China, dos grupos 5 e 10; e

3. O Mundo Subdesenvolvido, composto da América Latina, África do Norte e África Tropical, Oriente Médio, Sul e Sudeste da Ásia.

Para a confecção de mapas de processos de desenvolvimento regional, estruturou-se um arranjo hierárquico de níveis, classificados como estratos. Assim, pode-se dizer que toda a base do projeto do modelo do sistema mundial, apoiada no aspecto objetivo e subjetivo, origina-se nos seguintes fatores:

1. Estrato ambiental, enfocando o meio ambiente do homem – clima, terra, água, ar, recursos naturais etc.; 

2. Estrato tecnológico, abrangendo desde a agricultura rudimentar às comunicações por satélite;

3. Estrato demoeconômico, um somatório dos registros demográficos e econômicos;

4. Estrato grupal; e 

5. Estrato individual.

Apesar de toda a profundidade deste estudo, Sr. Presidente e Srs. Senadores, é possível que, aqui ou ali, a aplicação de sua teoria venha a incidir em equívocos oriundos de falhas de avaliação. Afinal de contas, seus autores tiveram que lidar, na elaboração do famoso relatório, não somente com matéria palpável, fatos concretos, dados rigorosamente exatos.

A par da ciência dos computadores, tiveram que correr os riscos, de que estão conscientes, das súbitas mudanças que marcam nossa era. Seu modelo de sistema mundial, conforme vimos, baseia-se em aspectos objetivos e subjetivos.

Se os aspectos objetivos, que delineiam o funcionamento do sistema, com base em pesquisas científicas, chegam a exibir uma verdade irretorquível, de duração suficiente, pelo menos, para nos darmos conta de sua autenticidade, os aspectos subjetivos, por sua natureza intrínseca, não nos dão senão uma vaga certeza ante o futuro, por mais forte que seja o instrumental da análise, por mais ponderável que se revele o fator bom senso e mais preciso que seja o emprego do fator lógica.

É que as pessoas, estudadas em conjunto ou principalmente de forma individual, não garantem à ciência, nem mesmo às vezes em prazo fugaz, a fria convicção numérica que se pode obter das máquinas. Isso, entretanto, não deverá influir como fator de desânimo para acatarmos a advertência que nos é feita por Pestel e Mesarovic, sobretudo num momento como o atual, em que a crise mundial de combustível, com reflexos danosos na economia de todos os países, mesmo os dos blocos mais desenvolvidos, nos alertou para esta evidência óbvia, que a nossa insensatez menosprezava: as reservas de que precisa a humanidade são finitas. Tanto as de energia como as de alimentos, as riquezas do solo e as do subsolo, tudo enfim que compõe o meio ambiente do homem, os processos ecológicos, os reinos animal e vegetal, tudo em suma que constitui fonte vital para a sobrevivência do ser humano.

Apesar da ressalva, feita no início deste discurso, de que, na aplicação de um programa como este, de cooperação internacional, devíamos nos acautelar para não ceder às tentações do otimismo exagerado, sinto que é ao próprio Renê Dubois, antes citado, que devo recorrer, de modo a impedir que, por antagonismo, não venhamos a mergulhar numa onda de pessimismo, sem alento para levar avante este projeto.

Dizia o cientista da Rockefeller University:

“Quando se tem fé, como eu tenho no poder da ciência e da imaginação dos pesquisadores para descobrir novas tecnologias, tem-se confiança no futuro. As coisas mudam com rapidez. Sou otimista porque, vivendo nos Estados Unidos, vejo a rapidez com que cada campanha de contestação ganha a opinião pública.”

O Sr. Luiz Viana – Permite V. Exa um aparte?

O SR. JOSÉ SARNEY – Com muita honra, Senador Luiz Viana.

O Sr. Luiz Viana – Acredito que V. Exa já deva ter lido um livro que está muito em voga, Momento de Decisão, e que, realmente, corrobora inteiramente a tese de V. Exa, que é muito oportuna e muito importante e mostra que ou o que V. Exa preconiza será feito agora, brevemente, ou se tornará impossível salvar a humanidade se procrastinarmos as medidas que são necessárias para fazer essa limitação do crescimento. Aliás, esse trabalho não é o primeiro, acho que é o segundo ou o terceiro editado ou divulgado pelo Clube de Roma, que tanto se tem preocupado a respeito. V. Exa, portanto, trata, realmente, de um assunto da maior relevância e o faz com o brilho e a proficiência de sempre.

O SR. JOSÉ SARNEY – Muito obrigado, Senador Luiz Viana, pelo aparte de V. Exa que, evidentemente, vai honrar bastante o meu discurso.

Mas já tive oportunidade de dizer que esse discurso teve a inspiração do trabalho feito pelo Clube de Roma, a que V. Exa aludiu, publicado no Brasil com a tradução de Momento de Decisão.

Como eu tinha em mãos, ainda, o original distribuído quando da reunião daquele Clube, fiz uma tradução do inglês como: O Momento Crítico da Humanidade, que era o título, realmente, que se encontrava naquela língua.

O meu ponto de vista, na realidade, quando o Clube de Roma propõe uma reformulação numa política mundial de planejamento, em termos do futuro, e acha que o mundo deve-se reunir em regiões e essas regiões devem repensar sobre seus recursos naturais, fazendo uma política de interdependência, acima das contingências políticas do momento, o sentido justamente do meu discurso é propor que o Brasil seja pioneiro em termos de América Latina.

Sr. Luiz Viana – É uma das regiões propostas.

O SR. JOSÉ SARNEY – Mas que o Brasil, em nome da América Latina, comece a ser o pioneiro nessa política de planejarmos, sob o ponto de vista de região, o desenvolvimento do futuro dos povos que habitam esta área do hemisfério, sobretudo porque, assim fazendo, nós, políticos do nosso tempo, temos a certeza de que estamos tendo uma visão do futuro, sobretudo porque a política não é a arte do possível, a arte do dia a dia, mas a arte de também profetizar e construir um futuro melhor.

Esta é a grande dimensão política que devemos ter também no momento. E fico muito feliz, porque vejo que o Senado da República, no fim da tarde, ainda pode reunir homens do talento de V. Exa, Senador Luiz Viana, de expressão nacional, como todos os outros colegas que me ouvem, com tamanha satisfação para mim. 

Para concluir, ele dá fé à gente para crer que esses problemas também encontram ressonância na classe política brasileira, que esses problemas também, embora debatidos em fim de tarde, encontram reflexão por parte de homens públicos da melhor estirpe, como os que aqui estão a me ouvir com tamanha bondade.

O Sr. Luiz Viana – Mas eu diria a V. Exa que divirjo muito daquele conceito de que a “política é a arte do possível”. Eu acho que a “política é a arte de tornar possível aquilo que desejamos”.

O SR. JOSÉ SARNEY – Muito obrigado a V. Exa.

O Sr. Roberto Saturnino – Permite V. Exa um aparte?

O SR. JOSÉ SARNEY – Com muita honra.

O Sr. Roberto Saturnino – Mais uma vez, Senador José Sarney, venho em aparte para louvar um pronunciamento de V. Exa, que se destaca nesta Casa como um dos representantes que têm maior sensibilidade para os problemas que são realmente importantes. A tese que V. Exa defende hoje, a meu ver, é inteiramente procedente, e não apenas procedente, mas muito importante e urgente. Ainda ontem aqui, em discurso, eu dizia que sou frontalmente, radicalmente, contra aqueles que acham que ainda é cedo para o Brasil pensar em problemas dessa natureza, que o Brasil está num estágio de desenvolvimento no qual deve concentrar todas as suas intenções e energias na solução do seu problema desenvolvimentista, no seu crescimento econômico para, uma vez atingido o estágio dos países mais avançados, aí voltar-se para essas questões que V. Exa levanta nesta tarde. Acho que é o momento para nós, também, começarmos a pensar, porque há os riscos, se não corrigirmos as distorções que começam a se manifestar no nosso País, as perversões do modelo econômico, político e social que está sendo desenvolvido e que levam a situações como aquela a que me referia ontem, que o Chefe da Divisão de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro declara que cerca de 28% da população do Rio de Janeiro sofre de desequilíbrios mentais. É uma proporção alarmante que, pelo menos, deve servir de elemento de meditação, para realmente verificarmos se as linhas, as diretrizes que estamos adotando no campo econômico, social e político não estão levando à concretização de um potencial destrutivo enorme. Não devemos esperar para chegar aos estágios das nações mais avançadas. É certo que elas só recentemente começaram a colocar em pauta problemas, inclusive, de natureza moral, porque os valores morais da nossa civilização não podem mais ater-se àqueles preceitos tradicionais da religião, mas devem incorporar-se, juntamente com o princípio da justiça social, às normas da preservação do meio ambiente, da conservação dos recursos naturais não renováveis. É importante também começarmos, desde já, a pensar nesses problemas que são da maior importância. Assim, quero juntar minha voz ao ponto de vista e às preocupações que V. Exa levanta, saudando o pronunciamento de V. Exa como um dos mais importantes que se fizeram nesta Casa, neste ano.

O SR. JOSÉ SARNEY – Muito obrigado, Senador Roberto Saturnino.

Ontem, tive a satisfação também de ouvir V. Exa, economista dos mais brilhantes deste País, responsável pela formulação e crítica de algumas das políticas deflagradas no Brasil, no setor econômico. Fiquei satisfeito, posso dizer, interiormente, quando vi V. Exa, homem que lida com números e objetividade, terminar seu discurso com uma mensagem sobre a felicidade da vida – esta é que era importante. E identificava o pensamento de V. Exa, que é o pensamento dos homens que não veem só aquela parte técnica, estreita, dos seus problemas particulares. Lembrava-me também de um colega de V. Exa, um dos grandes economistas do mundo inteiro, John Kenneth Galbraith, quando ele diz, com toda autoridade de economista, que “a civilização industrial é uma civilização que gera bens materiais”, mas conclui, dizendo: “o que importa não é a quantidade dos nossos bens, mas a qualidade da vida, saber que tipo de vida estamos construindo, estamos gerando, através da sociedade que criamos”. É este um tema fundamental e deve ser também da maior profundidade e da maior meditação entre os políticos. É um tema que não diz respeito às tribunas políticas; não pode comover as massas, mas evidentemente ele deve ser da preocupação de todos nós, responsáveis pela coisa pública, porque aí, certamente, se encontrará uma grande dimensão para os políticos do Brasil.

O Sr. Henrique de La Rocque – Permite V. Exa um aparte?

O SR. JOSÉ SARNEY – Com muita honra, Sr. Senador Henrique de La Rocque.

O Sr. Henrique de La Rocque – Nobre Senador José Sarney, anotei a frase: “A paz do mundo está dependente da realidade ecológica”. Considero muito válido o discurso que está proferindo, sério e profundo, admitindo que o conceito de planejar está intimamente ligado à irmanização dos povos, e o felicito porque assinala que, em torno de tais princípios, o homem viverá dinamicamente junto aos seus irmãos, independente de credo político ou religioso ou de posição social. Felicito-o também, com entusiasmo, pela admirável alocução que V. Exa está produzindo neste fim de tarde, merecedora da atenção de todos nós.

O SR. JOSÉ SARNEY – Muito obrigado, nobre Senador Henrique de La Rocque, pela bondade do seu aparte e pela gentileza de sua presença, até esta hora, no plenário desta Casa.

Sr. Presidente, não pretendemos contestar nada aqui a não ser naturalmente a imprevidência com que, no mundo inteiro, adiamos soluções para os problemas mais asfixiantes. Quem formulou a tese de que “a história se repete” naturalmente estava saturado de confirmação da teimosia humana. Há algumas décadas, podia-se deplorar que exemplos do passado, documentados nos compêndios da história das civilizações, não frutificassem em nosso tempo. Hoje, com a vertiginosidade propiciada pelos modernos meios de comunicação social, estamos a par de tudo, na hora exata em que as coisas acontecem, em qualquer parte. Somos testemunhas oculares da história – para repetir uma frase cediça – sem sair de casa, e a cada instante nossa participação nos problemas da “aldeia global” se torna mais acentuada. Sem exagero, estamos nos tornando contemporâneos do futuro.

Infelizmente, a despeito de tanto progresso da ciência e da tecnologia, essa participação tem sido muito mais passiva do que ativa. Sabemos que há gente morrendo de fome na Índia e na África e mal nos comovemos com a miséria do Nordeste brasileiro.

As cenas de guerra tornaram-se familiares a nossos olhos de telespectadores contumazes, e nossos filhos, acostumados desde tenra idade ao convívio com as imagens do vídeo, quase não distinguem o real do imaginário – os filmes de guerra dos documentários sobre a guerra. O que importa, no fundo, é o espetáculo.

Às vezes me pergunto se esse excesso de facilidade, devido aos satélites sofisticados, não estará destruindo o próprio homem e criando um outro, misto de gente e de máquina. Estamos a par de todas as tramas da diplomacia internacional e nos é permitido até assistir ao escorregão de um presidente, quando ele tropeça na escada do avião. Testemunhamos assaltos a bancos, vemos o atropelamento pouco depois de ocorrida a tragédia, ouvimos o grito de dor dos que foram marginalizados pela sociedade, na tentativa de nos transmitir, além da imagem plástica, o conteúdo humano de um apelo.

Mas que temos feito em contrapartida? No conforto da poltrona, diante do televisor, no máximo nos tornamos cúmplices silenciosos de situações que acabam se tornando rotineiras, à medida que, pelo aperfeiçoamento da técnica, se oferecem aos nossos olhos com mais realismo e maior assiduidade.

A dramatização da morte, quer pela fome, quer pelos grandes cataclismos, já pela guerra ou devido a epidemias, chega a molestar-nos. E, em nossa época de gratificante bem-estar, nada mais fácil e cômodo do que afastar um eventual problema inoportuno. Basta desligar o aparelho ou mudar de canal. As opções são muitas.

O que, portanto, parece-me urgente é uma alteração nesse comportamento alienado, uma modificação de posicionamento, a adoção de um novo conceito de cultura, começando por interpretar, em profundidade, tudo que nos é oferecido hoje a domicílio para as necessidades diárias de informação.

Saibamos tirar proveito dos privilégios da Era Espacial, dilatando a nossa visão para além do imediatismo da notícia veiculada. É preciso substituir a mentalidade de espetáculo, porque a extinção da espécie, parcialmente como a vemos, no dia-a-dia, é presságio de uma dizimação completa, se insistirmos na insensatez do indiferentismo.

Uma guerra, por mais irrelevante que seja a sua motivação, nada tem de digestivo. Os próprios programas de evocação dos grandes conflitos em que se envolveu a humanidade devem ser vistos como um lembrete para não incidirmos em novos erros desastrosos.

Igualmente, não podemos continuar aceitando as frequentes crises de alimentação como fenômenos isolados, na certeza de que há sempre sonegadores generosos que solucionarão o problema, cobrando o triplo pelo produto em falta. É preciso penetrar na origem das crises para conhecer as suas intenções e o seu raio de influência.

Em resumo, o que eu queria deixar claro nesta análise do Relatório Pestel-Mesarovic, em que é proposta a criação de um novo modelo de Sistema Mundial, é que não nos basta ter a informação sobre a situação do mundo, mas dispor de meios para melhorar essa situação, através de um entendimento global.

Se a meta fundamental do indivíduo é a felicidade pessoal, a meta da humanidade há de ser, obviamente, a conquista da felicidade total da espécie – entendendo-se por felicidade naturalmente o perfeito equilíbrio entre as necessidades e as disponibilidades, em todos os cenários em que habita o homem e nos componentes vitais da sua sobrevivência: no meio físico, na fauna, na flora, nas reservas naturais, na economia, no desenvolvimento orgânico.

Para alcançar esse estágio, o primeiro caminho será inevitavelmente o da conscientização do conhecimento genérico da problemática mundial, a partir do qual poderemos minimizar a questão, descendo aos detalhes das situações regionais, de modo a estabelecer a infraestrutura dos projetos de soluções.

E o Brasil, pela importância que a cada momento assume no concerto das nações, não poderia omitir-se naquilo que o Relatório de Roma chama “o momento crítico da humanidade”.

E para nossa participação efetiva, devemos liderar, na América Latina, um sistema novo de cooperação, não visando os nossos dias, nem os nossos países geográficos, mas visando, sobretudo, o nosso futuro, a natureza e a sobrevivência do homem.

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