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Josué Montello: sobre “O Dono do Mar”

Josué Montello •

Da Academia Brasileira de Letras. Folha de S. Paulo, 3 de dezembro de 1995.

Um romancista que desponta

Eu assisti, em 1952, em São Luís, à estreia de José Sarney, com a publicação de A Canção Inicial.

Por esse tempo, era ele um jovem poeta. Cedia ao impulso da idade e da geração a que pertencia, antes que nele despontasse o político, obrigando-o a seguir por outro caminho.

Os contos de Norte das Águas, publicados 18 anos depois, sem de todo romperem com a poesia, como forma de expressão genuína, deslocavam o poeta lírico para o plano da realidade regional, numa prosa que, não deixando de ser denúncia e testemunho, já denunciava no escritor o testemunho político, por força do homem novo que aflorava em Sarney. Daí lhe advém a oportunidade da luta que o levaria, ajudado por sua boa estrela, ao altiplano da Presidência da República, depois de ter sido Governador do Maranhão e Presidente do Senado.

O romancista, que só agora desponta em Sarney, corresponde na sua personalidade a uma convergência — aquela que somaria as experiências literárias do poeta, do contista e do cronista, para nos proporcionar o romancista, como a etapa mais importante do escritor, com a soma de suas experiências múltiplas e sucessivas.

Hóspede de Sarney, ao tempo em que ele exercia a Presidência da República, eu tive a oportunidade de testemunhar a coexistência harmoniosa do escritor no político.

Assim, ao fim do longo e porfiado dia de trabalho, em que o político punha à prova a sua capacidade de escutar e decidir, ouvi numa sala contígua o ruído da máquina de escrever. Aproximei-me, e dei com o Presidente, concentrado no texto que lhe fluía das mãos firmes, na composição de suas Memórias. E como ouvi alguns dos capítulos do livro inédito, posso assegurar aqui que o escritor, em Sarney, fiel à sua vocação, ia transpondo para a página datilografada a reminiscência objetiva que proporcionaria perdurabilidade ao efêmero, dando razão ao velho Anatole France, quando assegurava, em conversa com Jean Jacques Brousson, que a indiscrição de hoje é, por vezes, a erudição de amanhã.

Entretanto, no romancista José Sarney, agora revelado em O Dono do Mar, o político não intercorre no texto do escritor, quer no jogo das ideias, quer na inspiração narrativa. Mas, por outro lado, cumpre-nos reconhecer que a bela narrativa do mar maranhense, na sua limpidez, no seu frêmito épico, na sua convergência expositiva, só veio à tona, revelando-nos o Sarney épico- lírico, graças ao fato de que o político, nas suas andanças pelo Maranhão, lhe deu o tema e os personagens. Mas sem intrometer-se no processo mesmo da criação literária, já que o romancista levou em conta a famosa advertência de Stendhal, quando nos diz, em O vermelho e o negro, que a política, na literatura, é um tiro de pistola num concerto.

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