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José Louzeiro: sobre “Saraminda”

José Louzeiro•

Escritor, jornalista e roteirista. O Estado do Maranhão, 5 de novembro de 2000.

 

A importância de Saraminda

O mais recente romance de José Sarney, que vem sensibilizando leitores e críticos, é uma obra inovadora. São quatro as trilhas e tramas que dinamizam essa narrativa:

— O erótico, de desenho quase litúrgico, elevado ao estágio do sutil;
— A instauração de um ciclo especial do inferno chamado garimpo;
— Os duendes da mata-virgem que se tornaram anjos protetores  inclusive do romancista;
— O passado que condena mas enternece.

Saraminda não é apenas um contraponto de Iracema e Capitu, como lembra Carlos Heitor Cony. É bem mais abrangente. Pode e deve ser colocada na galeria das grandes personagens femininas da literatura mundial: Eletra, Julieta, Ana Karenina, Madame Bovary, a ingênua e bela Amélia Caminha, a Amelinha, de O Crime do Padre Amaro.

O estilo deste autor é ágil e se apresenta imanizado pelos veios do ouro que conduzem à fonte do poético e, em caprichosos desenhos, bordam de conflitos os pilares do metafísico.

Estamos diante de um autor que, com a perícia dos faiscadores, sabe dar as cartas no jogo das ideias e, por isso mesmo, consegue recriar o mundo das almas penadas, nos confins da decadente Caiena, que geme sob as dores que o ouro provoca. Seus habitantes sabem que apodrecem em vida, nos atoleiros dos rios e riachos, peneirando bateias, mas não desistem da aventura que é seu karma negativo e fatal.

No reino das floresta e das águas, flutua a beleza de uma mulher — Saraminda — e a força bruta de seu dono (comprou-a por 10 quilos de ouro) Cleto Bonfim, senhor de uma legião de capangas, das almas que por ali baixaram, dos bichos e das árvores. Saraminda, bela e calculista, encarna as perversões e os delírios que só o amor provoca.

Como que idealizada por Kamasutra, profeta indiano da sexualidade, é meio índia, meio marrom, meio dourada — furta-cor —, satanicamente bela. Por sua pele de maciez azulada escorrem sentimentos de pureza e humildade, que ocultam a peçonha da víbora.

Quando dobram os sinos, nas torres verdes de Calçoene, Saraminda chora pelo futuro que teme e por sentir no fundo da alma que vive numa “floresta de lendas e sortilégios” pois “a beleza do ouro está nos homens” e na necessidade que eles têm de sentir-se poderosos, ainda que cientes do fenômeno da transitoriedade.

Aí estão as linhas mestras dessa obra-prima de nossa literatura, conduzida por uma turba de desvalidos, aventureiros e endemoninhados, todos eles querendo alcançar-se ao paraíso. Ignoram que a luz que os ilumina é a mesma que cega e enlouquece, agrilhoando-os ainda mais à corrente dos sacrifícios. Voltados para o ouro que desponta da terra enlameada, não percebem que a riqueza maior — a saúde — está indo por água abaixo, pois esse é o preço que Midas cobra aos que desejam sentar-se a seu lado, no reino da opulência.

Lendo o romance de José Sarney, lembramos de algumas palavras do ensaísta Manuel Antônio de Castro quando diz, em Tempos de Metamorfose:

A narrativa, a grande narrativa, como toda arte, e como sempre aconteceu, em todas as épocas, está para além do discurso imanente e continua a revelar o homem por inteiro, ou seja, para além das dicotomias sedutoras, para além dos discursos excludentes. A arte — diz MAC — põe continuamente o homem em contato com seus núcleos míticos e, no mais íntimos de seus pensamentos, para além do consciente e do inconsciente, vai em busca da coincidentia oppositorum do homem integral.

As considerações de Manuel Antônio de Castro ajustam-se de maneira admirável ao universo ficcional de José Sarney. Saraminda não é apenas a história de uma deusa da sensualidade, que despontou na tribo dos perdedores, condenados a puxar cadeia nas masmorras da Guiana Francesa. Saraminda é a própria Esfinge a exigir que os renegados de caiena definam seus significados e significantes

José Sarney escreveu um tipo de prosa muito especial, traço de união com a poesia. O romance-poema, tantas vezes tentado por Antônio Feliciano de Castilho, Ferreira de Castro, Fernando Namora e Jorge Amado, entre tantos outros, define-se, finalmente, em Saraminda. Eis alguns versos que desabrocham como lírios do campo nessa prosa originalíssima do criador de O Dono do Mar.

A escuridão que cobre as ruas esconde o desencanto. Ficou imóvel, desfrutando dos olhares, escondendo a alma. Quando eu quebrei a caixa de meu amor por Saraminda, tinha apenas silêncio dentro dela. O cumaru só dá onde existe ouro, e o pé da montanha era só cumaru de fava cheirosa. Eu estava atraído por ele, coisa de passarinho e cobra. Quando se arranca o ciúme, a planta está morta. Sangrava um silêncio que se diluía no espaço como fumaça.

A par dessas invenções, destaca-se em Sarney seu apuro dramatúrgico, no ritmo, nos cortes e até nos plots, que aproximam esse livro de um bom roteiro cinematográfico. Os personagens do primeiro elenco, se assim podemos dizer, estão bem construídos. Até os “orelhas” e “figurantes com fala”, como é o caso de Firmino Amapá, Celestino Gouveia, Lucy e Maruanda, mexem-se com naturalidade, pois existem na verdade no universo ficcional, o que eleva, e muito, a carga de verossimilhança da narrativa.

Lucy é a “orelha” do herói Clément Tamba, moreno de olhos pequenos, lábios finos, alto e musculoso, portador de duas doenças contagiosas: a cobiça do ouro e a paixão por Saraminda. O autor pinta-o como a aventureiro educado e romântico, que “viveu a infância entre as lágrimas da mãe e as desordens do pai”, até o dia em que este resolve sumir da família e de Caiena.

Cleto Bonfim é o anti-herói. Mas diante de Tamba não sabe como proceder, o que dá um outro colorido ao conflito. Os dois não se batem, não se agridem. O sofrimento é tanto, e tanto tempo se passou, que entre eles o que há de real, mesmo, é a figura mítica da deusa marrom, rainha e dona dos corações dos garimpeiros, até mesmo daqueles que já não se aguentam nas pernas, mas dariam a ela, em troca de um único beijo, todo o ouro que conseguiram reunir, em anos e anos de chafurdação pelos alagados do Calçoene.

Celestino Gouveia é o assassino frio, perito degolador. Executa as ordens de Cleto, seu patrão. Mexe-se pela mata com a sutileza das serpentes. Faz lembrar o Antônio das Mortes, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

Lucy, ex-mulher dama, amante do sonhador Clément e de metade dos faiscadores de Caiena, encarna a figura mítica de quando ainda havia uma linha de horizonte estendida naquela distante região da Guiana Francesa. Agora, é mentora de um Clément senil e enlouquecida, que busca no passado um atalho para transitar no presente. Lucy quase não fala. Limita-se a ouvir o velho amigo dialogar com os fantasmas que o atormentam.

Há um outro personagem em Saraminda curiosíssimo, que é Jacques Kemper. Olhos azuis e muito bonito, uma espécie de Dorian Gray francês, funcionário da Société Française de l’Amérique Équatoriale e que, a contragosto, envolve-se com a deusa, fazendo disparar o ciúme mortal de Cleto Bonfim, que o condena à prisão, num gaiolão imundo, dentro do mato.

Saraminda dissimula sua paixão mas, na verdade, examina a possibilidade de escapar do inferno na companhia de Kemper. Ao mesmo tempo sabe que a reação de Cleto seria violenta, caso descobrisse seu projeto. Afinal, durante o movimentado leilão, resgatou-a por dez quilos de ouro, uma fortuna e disso todo mundo sabia em Caiena.

Como a ficção de Sarney é uma longa estrada de aventuras, há um acostamento para as encenações do martírio e isso cabe a Maruanda, empregada da deusa. Leva bilhetes da patroa ao prisioneiro, relaciona-se com ele, morre por amor.

Um outro motivo de encantamento deste livro é a impessoalidade do narrador, coisa essa que faz lembrar o que escreveu Flaubert a respeito de Madame Bovary: “O autor deve ser absolutamente imparcial, não se limitando ao aspecto ético ou social da história. Significa, também, que não lhe é permitido celebrar as alegrias de seus personagens nem apiedar-se de suas misérias. Sua única obrigação é comunicá-las.”

Procurando explicar o procedimento de Flaubert, diz Mário Vargas Llosa, em A Orgia Perpétua: O narrador é sempre alguém diferente do autor, mais uma criação deste e, sem dúvida, o mais importante, mesmo nos casos em que se trata de um relator invisível, porque todos os outros dependem deste personagem secreto.”

Em Saraminda, o narrador invisível responde pela criatividade poética e moral da obra. É uma espécie de sombra do autor, e faz-nos notar, principalmente, nos momentos da dúvida da deusa marrom e nos delírios de Clément Tamba, diante de Lucy e de seus fantasmas.

Desde quando o narrador invisível existe? Muito antes de Madame Bovary. Só que os autores do classicismo não tinham consciência dessa técnica que eles próprios estavam criando. Acertavam e erravam na base do improviso. Às vezes esse narrador surgia como um intruso. Aparecia, desaparecia, em certos momentos tornava-se uma entidade opressora.

O narrador secreto só teria seu desenho, definitivamente estabelecido, a partir de Madame Bovary, quando Flaubert conseguiu fazer com que os críticos entendessem: a função dele era dissimular a existência de um autor físico, a fim de que não houvesse limites entre o real e o mágico, o profano e o sagrado, a lucidez e a loucura, no texto ficcional…

Essa técnica, ainda não muito bem assimilada até hoje, é seguida a risca pelo autor de Saraminda que, somente por isso, já se colocou como um ficcionista seguro do que faz. E são esses cuidados que tornam o romance de José Sarney um dos mais importantes de nossa literatura.

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