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Carlos Zarur: sobre “Crônicas do Brasil contemporâneo”

Carlos Zarur•

Jornalista. Artigo publicado no caderno Pensar do jornal Correio Braziliense.

 

As Crônicas de Sarney

Acabo de ler as Crônicas do Brasil contemporâneo do jornalista, escritor, intelectual, cronista e, também, político, José Sarney. Um atento olhar sobre a realidade nos artigos que foram publicados na Folha de São Paulo entre os anos de 1988 e 2002. O estilo, quase sempre sereno como o autor, pode, repentinamente, cortar como navalha aprofundando a discussão de delicados problemas.

Logo no início, é importante a constatação crítica de que “a arte da política, com P grande, vai se tornando difícil”. O autor lembra que o primeiro que usou esse termo com “P grande” foi Joaquim Nabuco, em seu livro Minha Formação. Essa crônica é atualíssima, pois discute se fazer boa política é “ficar exclusivamente algemado pela concepção de que todos os problemas do homem se resumem no econômico”. Com contundência, o Senador pergunta se o “capitalismo selvagem, a globalização do mercado financeiro, os altos níveis de pobreza, o desemprego e uma democracia excludente é política com P grande?” Em diversos trechos de seus artigos, o autor critica a falta de sensibilidade da economia e procura caminhos alternativos.

No campo internacional, o artigo “Saudades do Futuro”, publicado em 7 de maio de 1999, antecipa o que seria a política americana da era Bush. Fala das dificuldades para se negociar com os EUA. “Cada vez mais sua diplomacia torna-se arrogante e prepotente, sem diálogo, impositiva”.

Mas há, também, momentos mais amenos como a deliciosa “A crise do ponto e vírgula”, publicada em maio de 99, em que, nosso imortal escritor, lembra do preciosismo que os maranhenses têm pela gramática pátria. Conta que no Maranhão, as pichações de rua não são condenadas pela sujeira que causam, mas pelos erros contra a língua. Descreve a grande revolta que houve quando picharam “abaicho a caristia”. Editoriais estamparam que “é preciso uma reação do governo e da sociedade para que os atos dessa natureza jamais se repitam”. Na verdade a crônica chega à discussão que causou, no decreto de então da Previdência dos trabalhadores, um simples ponto-e-vírgula. Lembra, que como “a crase não foi feita para humilhar ninguém” também o “ponto-e-vírgula não foi feito para prejudicar ninguém”.

A preocupação ecológica está presente em várias crônicas, principalmente nas que denunciam a deterioração dos mananciais de água. “Nada mais essencial à vida do que a água e o ar. São eles que estão sendo contaminados pelos homens numa proporção demolidora. O maior problema do século 21 será o da água doce”. Neste artigo, intitulado “Por quem gritam os biguás”, Sarney lembra do sofrimento do pássaro, escreve: “Se tivéssemos que tirar um retrato da dor, do sofrimento, da denúncia, do desespero, ninguém tiraria um mais exato do que a foto daquele biguá negro, de bico aberto, olhos esbugalhados, asas encharcadas de óleo, gritando que não podia mais comer, voar, libertar-se do chão no prazer da vida”.

Para não preocupar o caro presidente escritor, que deve estar pensando que este jornalista vai publicar todo o seu livro neste artigo, não vou esticar mais os comentários, só lembrar que entre os diversos assuntos há ainda temas como a religião no artigo “Fátima e o pantanal”, inspirado em sensível conversa que teve com sua querida mãe; a preocupação com a paz no mundo; as lembranças de alguns bons momentos e velhos amigos, e o reconhecimento de que é supersticioso, assim confessa o autor: “É a reação que tenho diante do marrom, do pinguim de geladeira, de bicho empalhado, de folhinha de mulher nua e de carro verde”.

Crônicas do Brasil Contemporâneo, na abertura de cada artigo, detalha fatos que foram notícia na data da publicação. Isso dá ao leitor uma noção exata do momento que vivia o país, quando a Folha de São Paulo estampava as mais de duzentas crônicas reunidas agora em dois volumes.

É bom prestarmos atenção nos artigos de José Sarney que são publicados em diversos jornais, pois constroem uma teia bem tecida usando linhas de realidade e sensibilidade que só a experiência de uma vida, rica e intensa, pode oferecer.

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