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Adolfo Castañon: sobre “O Dono do Mar”

Adolfo Castañon•

Adolfo Castañon. Poeta, ensaísta, editor e crítico literário. Da Academia Mexicana de la Lengua. Reforma, México, 23 de agosto de 1998.

 

O Dono do Mar: uma obra com alma

O Dono do Mar foi saudado por personalidades tão diversas como Claude Lévi-Strauss, Maurice Druon e Jorge Amado com inteligência e entusiasmo. Dele diz o autor de Gabriela, cravo e canela e Capitães da areia: “O Dono do Mar propõe ao leitor uma visão inesquecível do mar do Maranhão, em sua realidade e em seus mistérios […]. Ao passar do conto ao romance, José Sarney soube manter a alta qualidade de sua escrita, mas agregando uma maturidade de conceito e de realização que não é frequente encontrar.”

Sarney não é um escritor acadêmico nem de gabinete; está distante do psicologismo e do bovarismo e seu projeto narrativo entronca com a grande literatura realista latino-americana, prolongando-a e enriquecendo-a. Talvez por isso seu personagem principal não seja o Capitão Cristório nem seu barco nem nenhuma das mulheres, dos monstros e seres fantásticos ou dos fantasmas que nela pululam. O personagem principal parece ser esse complexo geográfico de características variadas, dono de uma fauna e de uma flora muita diversas e que se conhece como o Grande Golfo do Maranhão no Norte do Brasil. Essa unidade geográfica e marítima alberga também um conjunto de populações muito diversas entre si, mas unidas, de um lado, pela cultura do mar e pela faina marítima, junto com a agricultura um dos saberes originários da humanidade; unidas, de outro, pela língua, a língua portuguesa.

Não esqueçamos, como diz Sarney, pela boca de um personagem que: “O português era a língua dos navegantes, fomos os descobridores da terra de um polo a outro.” De modo que ninguém estranhará que o encontro entre o mar e a língua dos navegantes se cumpra, ao mesmo tempo, como um romance de aventuras entre tempestades e obstáculos e como uma viagem no tempo rumo à história trágico-marítima que marcou
a memória do Brasil e de Portugal.

Sarney logra fundir o elemento folclórico-popular com o histórico-arqueológico ao dar realidade local e regional às histórias de amor e morte de piratas e de navios fantasmas que levam, como um carregamento precioso, a memória das façanhas marítimas portuguesas. Mas nunca perde de vista o mar que na imaginação de seus personagens é sinônimo de amor e dignidade. O Dono do Mar não é assim somente um romance de aventuras, de navios fantasmas, seres fantásticos e náufragos no tempo; assim como a Chita verde, o barco de Cristório, o personagem principal, o romance é uma construção habitada, uma obra com alma e que deixa transluzir por todo o romance uma sabedoria que não é a sabedoria do triunfo nem da derrota, senão consciência do tempo, ou seja, diria Sarney, do mar e da gente que mora nos arredores do Grande Golfo do Maranhão.

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